sábado, 28 de março de 2015

Frase do Dia

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"Há muitos homens de princípios nos partidos políticos, mas não há nenhum partido de princípios."

(Alexis de Tocqueville)

quinta-feira, 19 de março de 2015

Dez Minutos

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Promessas vazias e esperanças vãs lhe tiram do sério, assim como se atrasar para o trabalho, que acaba sempre sendo ruim para ele mesmo. Quando se é responsável por diversas funções, torna-se fácil perder o foco, até porque o foco dele não é um, mas vários.

Mesmo com quinhentas e vinte e sete mensagens para responder, o celular apitando seus compromissos na empresa e a assistente repetindo que ele é funcionário como todos ali, às quatro da tarde ele para o trabalho e tranca a porta, fecha as venezianas que dão para o salão - onde trinta funcionários falam sem parar ao telefone -, fecha a janela e apaga a luz. Dez minutos, devidamente descontados da mísera meia hora que tem de almoço, é do que ele precisa.

Em dez minutos, sentado confortavelmente em sua desconfortável cadeira, olhos fechados, de barulho somente um falatório distante, ele reflete a mesma reflexão que lhe acompanha há mais de trinta anos de casa: e se ele não existisse, se não estivesse ali, o que mudaria? As respostas variam, de acordo com o tempo e da personalidade de quem lhe cerca, porque, diferente dele, as pessoas vêm e vão. Sim, sua assistente tem razão. Ele é somente mais um funcionário com meta para atingir, apesar de seu talento de se adaptar a qualquer situação, seja ela oriunda do humor do mercado ou da péssima condução dos negócios pelos donos da empresa.

Nesses dez minutos, pensa também em outra coisa. É pensamento que ele acessa, sempre que deseja sossegar o espírito. Porque, diferente do que enxergam na empresa, da imposição de seu olhar profissional, de seus ternos simples, mas muito bem conservados e passados, da austeridade de sua voz e do recorrente infortúnio de ser o autor de quase todas as broncas infligidas durante horário comercial, há essa fresta na rotina pela qual a luz entra e se espalha.

Há esses dez minutos, durante os quais ele pensa em como seria se estivesse em algum lugar com montanhas e rios, em vez de em um escritório, mas é certo que sua criatividade não ultrapassa as montanhas, tampouco molham os pés nos rios. Na verdade, nem se lembra de quando esteve em lugar onde não pudesse chegar de metrô. Mas a maior parte desses dez minutos ele gasta pensando em outra coisa, muito menos provável, porém cordialmente amansadora de angústias.

Quando pequeno, moleque de tudo, conheceu um menino na escola que lhe disse, em confidência, que quando crescesse sumiria do mapa. Ele não entendeu esse negócio, que não há como sumir da geografia do mundo. Mas o colega, menino danado, que não parava quieto e sorria o tempo todo, assegurou que havia sim um lugar fora do mapa, e que lá ele construiria a sua vida.

O colega se tornou seu melhor amigo. Não sumiu do mapa, ao contrário, é uma das pessoas mais conhecidas do mundo. Dono de hotéis em diversos países, fluente em pares de idiomas, homem de negócios que serve de modelo para tantos. Ainda sorri daquele jeito escancarado, só que não é mais sorriso desbravador, mas oferecido para omitir que, depois de tantas vitórias, vem perdendo a batalha para a solidão. Queria ele estar no mapa afetivo de alguém que não se importasse com o tipo de importância que ele tem para quem não lhe quer bem, mas definitivamente quer se tornar ele.

Seu amigo lhe ofereceu dinheiro, emprego, status. De forma atenciosa, preocupado com a vida de sempre dele, ofereceu-lhe viagens, que o mundo é grande, por que não conhecê-lo? Ele nunca aceitou mais do que ser convidado para um e outro jantar pomposo na casa do amigo. Fora isso, os churrascos e bate-papos eram sempre na varanda de seu apartamento comprado em parcelas a perder de vista.

A fama, o dinheiro, o sucesso do amigo nunca lhe interessaram. O que ainda os mantêm sintonizados é a amizade que eles construíram antes de se tornarem adultos envolvidos com suas questões profissionais e existenciais. Amizade conquistada nas tardes jogando bola, nas paqueras durante a aula de Ciências, que ambos caíram de amores pela professora. E nessa ideia que se tornou a única capaz de lhe assanhar o imaginário, que ele nasceu pessoa prática, infértil para os dramas compartilhados.

Durante os dez minutos em que ele consegue se desprender da realidade, da sua rudeza e austeridade, da impaciência do outro em compreender que a vida nem sempre nos dá o que exigimos dela, e quase sempre exigimos o que nem mesmo merecemos receber, e mergulha nesse silêncio que é o negar-se a escutar o mundo, ele se sente como se estivesse vivendo fora do mapa; que se alguém conferisse nesse período, ele não estaria em geografia que fosse.

Durante os dez minutos, ele desiste da sua realidade e vai morar nesse lugar interior, completamente fora do mapa, do jeito que o amigo, incessantemente, até que a vida lhe empalidecesse os desejos, acreditou ser possível.

O alarme do celular toca. Ele sai do transe, automaticamente. Abre os olhos, a janela, as venezianas e observa o movimento do salão. Os funcionários ainda falam ao telefone. Alguns deles são particularmente histriônicos.

Durante dez minutos, ele some do mapa, independente das urgências, da insatisfação de sua assistente, dos vários papéis que ele tem de desempenhar como funcionário de um mesmo lugar há mais de três décadas. Ele sabe que, para seguir com a vida, é preciso haver um momento em que possamos existir independente do que ou de quem nos cerca.

Essa liberdade cronometrada acontece todos os dias para ele, mesmo nos finais de semana, às quatro horas da tarde.

sábado, 14 de março de 2015

Sexta Treze Feira

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A sexta-feira 13 não me aterroriza. Talvez, por que muitas outras coisas me apavoram terrivelmente, com ou sem sexta-feira, com ou sem dia 13. Sexta-feira 13, pra mim, não é filme que a gente arrepia antes da cena. Sexta-feira 13 é o que vejo pelo mundo em que transito, e pelo mundo que transita longe de mim. Sexta-feira 13 mesmo é a banalização da vida – que pode ser interrompida nas guerras entre nações, ou nas guerras particulares, numa briga de bar, num shopping, no trânsito cotidiano, numa esquina qualquer, ou em casa de família mesmo. 

Sexta-feira 13, pra mim, é gente (ainda) sofrendo fome, frio, e até morrendo, por falta de alimentação e agasalho, em vergonhoso estado de desamparo, diante dos olhares indiferentes. Sexta-feira 13, pra mim, são os sentimentos negativos que nós todos, seres humanos, nutrimos: desrespeito, orgulho, inveja, ciúme, vingança, ingratidão, raiva beirando ao ódio. Também, pra mim, sexta-feira 13 é má interpretação, fofoca, manipulação de seres humanos, irresponsabilidade, inconsequência, abuso de poder, ou assumir compromissos, para depois nem tentar cumpri-los.E por aí segue uma lista infindável do que me causa espanto, indignação e revolta.

Mas hoje é dia 13, e, para evitar essa lista aí de cima, não há remédio, nem simpatia. Já dizem que “se ferradura desse sorte, cavalo não puxava carroça”. Por isso, sempre vale manter alguma superstição, por que, afinal, faz parte da história humana. Eu, por exemplo, não passo debaixo de escada, pra evitar a possibilidade de levar um banho de alguma lata de tinta, na calçada.

Consultando a ‘mestra’ internet, percebo que superstição não é ‘coisa’ só de brasileiro, não. Os chineses, por exemplo, não varrem a casa, no ano novo deles, pra evitarem varrer a sorte junto. Em Ibiza, não se vê padre em barcos de pesca, em respeito aos “deuses do mar”. Os holandeses também batem na madeira, pra afugentarem a má sorte – a diferença é que batem a mão fechada na madeira não pintada.

Superstições é o que não faltam, pelo mundo. Quer mais?... Os escoceses não carregam pá (ferramenta) dentro de casa, pra evitarem a possibilidade de algum sepultamento próximo. Na Islândia, mulher grávida não toma coisa alguma, em xícara trincada, pra não ter filho com lábio leporino. Os japoneses são mais radicais que nós, por exemplo, que desconfiamos dos gatos pretos. No outro lado do mundo, qualquer gato, seja da raça ou da cor que for, dá azar do mesmo jeito.

Quem dera todos os meus temores e pavores estivessem centrados em possibilidades supersticiosas... até por que sexta-feira 13 não é todo dia...

sexta-feira, 6 de março de 2015

As Verdades Sobre Uma Ou Outra Dose

 

 “Melhor morrer de vodca do que de tédio.”

A frase acima está no Facebook do estudante Humberto Moura Fonseca, 23 anos, morto depois de beber 30 ou mais doses de vodca no último sábado. Ele participava de uma festa com bebida liberada em uma chácara em Bauru, cidade em que cursava engenharia elétrica. A festa era de estudantes de engenharia.

Após divulgação na imprensa, a frase circula hoje pelas redes sociais acompanhada de insinuações de que o responsável pela tragédia foi o próprio rapaz.

“Triste ver gente sem metas na vida”, escreveu a usuária Samira Queiroz no Twitter. “E o babaca morreu”, disse Pedro Sprangin na mesma rede social. “Realizou o ‘sonho'”, postou Leandro Capilluppi. “Parabéns, você atingiu seu objetivo”, disse Giovanna Pedroso. Etc, etc.

O que pode inspirar alguém a dizer coisas assim? O desprezo pela vida de um semelhante? Ou a perplexidade diante de uma morte absurda? Prefiro ficar com a última opção.

Overdose acidental nunca foi tratada como suicídio em qualquer lugar do mundo.

O álcool pode levar qualquer um a se expor a situações perigosas, especialmente ao consumo do próprio álcool em doses potencialmente letais. Porque quem bebe perde temporariamente as funções do cérebro responsáveis pela inibição e capacidade de julgar o certo do errado. Isto é científico.

Dizer que qualquer fração da culpa é de Humberto, alguém de quem não se conhece o perfil psicológico, é de uma perversidade obtusa.

Mas a Lei precisa e deve trabalhar. Dois organizadores da festa foram presos imediatamente. Eles serão acusados de homicídio com dolo eventual, aquele em que se realiza um ato tendo consciência de que a vítima poderá morrer em sua decorrência.

A culpa é deles? Não há registro de que os organizadores tenham empurrado as 30 doses de vodca pela goela de Humberto. Nem dele nem dos outros estudantes que participaram de uma competição para descobrir quem bebia mais. Além da vítima fatal, três foram parar no hospital em coma alcóolico mas sobreviveram.

O Ministério Público Estadual se diz empenhado em encontrar os culpados. Descobriram que a festa era clandestina, realizada sem alvará, e que não havia socorro emergencial à disposição.

Minha opinião é que a não ser que o MP tenha alcançado a sofisticação de processar e punir tradições de décadas e décadas como as orgias alcoolicas dos universitários brasileiros, vai acabar colocando na cadeia dois bodes expiatórios. No curso de engenharia, especificamente, este descontrole é endêmico.

Digite na busca de imagens de Google as palavras “festa” e “engenharia”. Você vai encontrar cartazes e folhetos que infalivelmente celebram o exagero no consumo de bebidas alcoolicas.

Do curso de engenharia da UFES em que estudei nos anos 2000 vem o cartaz da 42ª Calourada de Engenharia. Em letras garrafais: “A maior festa open bar do ES”, “1000 grades de Brahma liberadas”, “Vodka (sic) com energético liberados”, “Tequila liberada para as mulheres”. Enquanto estudei lá, dois estudantes morreram em festas, uma delas de engenharia. As confusões na infame festa “Abre Bodes”, que reunia os cursos de exatas, eram praxe.

Eu morei durante um ano numa república com três destes estudantes de engenharia. Usavam a bebida para escapar da pressão dos estudos e para vencer a timidez que parece acompanhar quem tem facilidade com números e equações.

Viviam a rotina de estudar obsessivamente um assunto árido, reprovavam em matérias que pareciam moldadas para tirar a sanidade do estudante e mal viam seres humanos do sexo feminino no dia a dia. Na sexta-feira à noite, pareciam aqueles elefantes indianos que volta e meia comem frutas fermentadas do chão, ficam loucos com o álcool e destroem vilas inteiras com suas patas gigantes.

A cultura do abuso do álcool nos cursos de engenharia precisa ser levada em conta na hora de encontrar os culpados pela morte de Humberto. Senão esta cultura, o descaso de quem deveria olhar melhor para estes rapazes que, como ele, passavam os primeiros anos longe de casa em meio a um dia a dia escorchante.

“Meu filho perdeu a vida por uma brincadeira de mau gosto”, disse Josely Pinto de Moura, mãe de Humberto, à Folha de S. Paulo. “Uma festa assim instiga o rapaz a beber, ele vai sendo motivado para isso”, disse.

Mãe sabe tudo.

Ao ver o cadáver de Humberto, a Unesp foi a primeira a tirar o corpo fora. Disse que esse tipo de festa é proibido, que aconteceu fora dos muros da universidade e, de quebra, exibiu um trecho de uma portaria em que conseguiu ignorar que o manjadíssimo plural de “campus” é “campi”.

“É vetado o uso de bebidas alcoólicas nas dependências dos Câmpus Universitários”. Além disso, em todas as Unidades, é realizada intensa campanha alertando para os perigo do consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

Se fazem mesmo estas campanhas, está pouco. Façam mais. Levem psicólogos, conversem com estes rapazes. Comecem pela engenharia.

(A frase do perfil de Humberto, aliás, é do poeta russo Vladimir Maiakóvski, não cita especificamente a vodca e pertence a um poema em que este homenageia o colega Sergei Yesenin, que se suicidou em 1925.)

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