sábado, 3 de janeiro de 2015

Pedaços

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Parafuso

Sou tomado por uma inspiração das mais elevadas, chego a dizer quase divina. Sinto meu pensamento, minhas ideias, meu modo de ver o mundo sendo lavados por uma máquina lavadora gigante, dessas que você não encontra nas Casas Bahia, e que só pode ser coisa do céu. Sabe aquela história de criança que escuta o estrondo do trovão, e a mãe vem dizendo que São Pedro tá arrastando os móveis e lavando o céu? Daí o barulho? Pois é. Só pode ser coisa do céu. Só pode ser máquina de São Pedro. Sinto — aliás, não sinto; ou sinto depois, isso sim — que a cabeça viaja e se desliga do mundo. Sabe quando você está dirigindo por uma estrada conhecida, a música do rádio tomando conta, e você simplesmente desliga? O Nirvana? Não sei. Só sei que é assim. E quando acordo tudo está diferente. Mas o pensamento, ah!, o pensamento, é a melhor parte. O pensamento está leve como um graveto. Límpido, arejado, como boiar no mar. E você descobre que a vida é muito simples de ser vivida. Mas dura pouco esse estado, meu amigo. E não existe um botão pra gente apertar. De repente, eu sou o de sempre. Bate o desespero. Entro em parafuso.


A panela da vizinha


A panela da vizinha cozinha. Tudo bem a panela da vizinha cozinhar. Mas a panela da vizinha cozinha agora. E agora não é hora. Agora é hora de as vozes calarem, de os ruídos sumirem, de os mugidos morrerem, de as pessoas dormirem. E esse chiado de chaleira, esse chiado mequetrefe de chaleira que mais parece um raquetada na bolinha do meu silêncio, esse chiado de chaleira que não me deixa dormir. Mas que raios levam a vizinha à cozinha? Mas que raios levam a vizinha à cozinha pra cozinhar? Agora?


O vigia


Tem um solzinho. Ele atravessa a rua, acende um cigarro, fica a se esquentar na manhã fria. Quando passa um conhecido, tenta puxar conversa, mas o conhecido tem pressa, afinal, as horas voam e o dia apenas começa. Não pra ele, pensa, que está quase no fim da jornada. Noite dura, sem grandes emoções.


Sempre


Lá vem ele de novo com a camisa verde. Sempre. A camisa, eu quero dizer. Ele está sempre de camisa verde. Se bem que ele sempre vem também. Ele sempre vem de camisa verde. Sempre. Ora, o sempre está certo, mas chega de sempre. A camisa, como eu estava falando, é sempre a mesma. Ai... Quer dizer: é igual. Mas eu não sei se são sempre as mesmas. Ele pode ter umas quatro, com as lavagens alternadas, até que dá pra tocar. E se forem duas? Daí a coisa é feia. Pode ser que use uma durante uns três dias e a outra durante os outros quatro dias. Ou vai alternando, cada dia uma. Mas que mania de sempre ficar se metendo na vida dos outros! O que você tem a ver com a camisa dele? Nada. Mas sempre se metendo! Sim... Sempre...


Insônia

 
Agora vejo de cima a cidade dormindo. Um clarão apenas. Num prédio longe, lá na Independência. Alguém como eu. Madrugada quente essa. Acordei com a testa molhada. Acho que tava sonhando. Pego no violão e dou uma arranhada, uma música nova que eu tô tirando do Nando Reis. Daqui a pouco meu novo vizinho vem reclamar na minha porta. 

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