domingo, 19 de fevereiro de 2012

Como eu contarei estória para meu filho dormir...

Era uma vez três porquinhos, P1, P2 e P3, e um Lobo Mau, por definição, LM, que os vivia atormentando. P1 era sabido e já era formado em Engenharia. P2 era arquiteto e vivia em fúteis devaneios estéticos, absolutamente desprovidos de cálculos rigorosos. P3 fazia Estilismo e Moda na ECA.
LM também era um mega investidor imobiliário sem escrúpulos e cobiçava a propriedade que pertencia aos Pn, visto que o terreno era de boa conformidade geológica e configuração topográfica, localizado próximo à Granja Viana. Mas, nesse promissor perímetro, P1 construiu uma casa de tijolos, sensata e logicamente planejada, toda protegida e com mecanismos automáticos.
Já P2 montou uma casa de blocos articulados feitos de mogno, que mais parecia um castelo lego. Enquanto P3 planejou no Autocad e montou ele mesmo, com barbantes e isopor como fundamentos, uma cabana com teto solar, e achava aquilo 'o máximo' (VIADO).
Um dia, LM foi até a propriedade dos suínos e disse, encontrando P3:
- 'Uahahhahaha, corra, P3, porque vou gritar, e vou gritar e chamar o CREA para denunciar sua casa de isopor e palha projetada por um formando em Comunicação e Expressão Visual!'
Ao que P3 correu para sua amada cabana,mas quando chegou lá os fiscais do CREA já haviam posto tudo abaixo.
Então P3 correu para a casa de P2.
Mas quando chegou lá, encontrou LM à porta, batendo com força e gritando:
- 'Abra essa porta, P2, ou vou gritar, gritar e gritar e chamar o Greenpeace, para denunciar que você usou madeira nobre de áreas não-reflorestadas e areia de praia para misturar no concreto.'
Antes que P2 alcançasse a porta, esta foi posta a baixo por uma multidão ensandecida de eco-chatos maconheiros que invadiram o ambiente, vandalizaram tudo e ocuparam os destroços, pixando e entoando palavras de ordem.
Ao que segue P3 e P2 correm para a casa de P1. Quando chegaram à casa de P1, este os recebe, e os dois caem ofegantes na sala de entrada.
P1: - 'O que houve?'
P2: - 'LM destruiu nossas casas e desapropriou os terrenos.'
P3: - 'Não temos para onde ir. E agora, que eu farei? Sou apenas um formando em Estilismo e Moda!' (viado)
Enquanto isto, LM grita:
LM: - 'P1, abra essa porta e assine este contrato de transferência de posse de imóvel, ou eu vou gritar e gritar e chamar os fiscais do CREA em cima de você!!! E se for preciso, até aquele tal de CONFEA.'
Como P1 não abria (apesar da insistência covarde do porco arquiteto e do...do.... estilista), LM chamou os fiscais.
Quando estes lá chegaram, encontraram todas as obrigações e taxas pagas e saíram sem nada arguir. Então LM gritou e gritou pela segunda vez, e veio Greenpeace, mas todo o projeto e implementação da casa de P1 era ecologicamente correta.
Cansado e esbaforido, o vilão lupino resolveu agir de forma irracional (porém super comum nos contos de fada):
- Ele pessoalmente escalou a casa de P1 pela parede, subiu até a chaminé e resolveu entrar por esta para invadi-la.
Mas quando ele pulou para dentro da chaminé, um dispositivo instalado por P1, ativou uma catapulta que impulsionou com uma força de 33.300 N (Newtons) LM para cima com uma inclinação de 32,3° em relação ao solo.
Este subiu aos céus, numa trajetória parabólica estreita, alcançando o ápice, onde sua velocidade vertical chegou a zero, a 1.200 metros do chão.
Agora, meu filho, antes que você pegue num repouso gostoso e o Papai te cubra com este edredom macio e quente, admitindo que a gravidade vale 9,8 m/s”, calcule:

a) a massa corporal do lobo.
b) o deslocamento no eixo 'x' do lobo, tomando como referencial a chaminé.
c) a velocidade de queda de LM quando este tocou o chão (considere o atrito causado pela resistência do ar).

A história da Chapeuzinho contada de outra maneira...

Chapeuzinho viu uma movimentação num arbusto e foi ver o que era.
E lá estava ele, o Lobo.
Então perguntou:
- Seu Lobo, o senhor por aqui?
- Sim, Chapeuzinho...
- Mas Seu Lobo, pra que esses olhos tão grandes?
- É para te ver melhor!
E o Lobo correu sumindo pela mata.
Mais adiante, Chapeuzinho Vermelho percebe outra movimentação em uma moita e vai verificar.
Lá estava novamente o Lobo.
- Seu Lobo! O senhor por aqui novamente?
- Pois é, né, Chapeuzinho....
- Mas Seu Lobo, pra que essas orelhas tão grandes??
- É para te ouvir melhor!
E o Lobo correu sumindo mata adentro... Mais adiante, novamente uma movimentação em uma moita.
Chapeuzinho vai verificar e encontra novamente o Lobo Mau.
- Seu Lobo, outra vez o senhor por aqui?
- É, né, Chapeuzinho...
- Mas me diga: para que essa boca tão grande?
- É para te mandar tomar no cú, porque eu tô querendo cagar faz um tempão e
você não deixa.

Frases do dia


A distância entre o querer e o poder se resume em uma palavra: Tentar

O problema não é desculpar. É desculpar quem a gente sabe que vai magoar de novo.

O ruim das decepções é que elas vem de quem você menos espera.


sábado, 18 de fevereiro de 2012

Citação do Dia...


 "Ama o impossível, porque é o único que te não pode decepcionar."

Vergílio Ferreira

Do Outro Lado...

Hoje ao deparar-me com você percebi em seus olhos uma certa angústia, uma decepção.
E ao te desprezar senti que quem está agora em meu lugar é você.

Pela primeira vez senti o sabor da vitória. Depois de muito tempo percebo que a ampulheta finalmente está com seus grãos dispersos.
Agora quem derrama os grãos d’areia sou eu e você apenas os colhe como há muito eu os colhia.

E hoje sou eu quem despreza, maltrata, humilha...
E hoje é você quem passa pelo o que eu passei em suas mãos.

Mas...
Como toda ampulheta tende a inverter seu lado, eu te prometo que quando isso tiver de acontecer a quebrarei em mil pedaços, para nunca mais sofrer por sua causa e nem você sofrer mais pela minha...

Frases do Dia


A decepção é a verdadeira forma de provar como amamos alguém...
  As pessoas que mais amamos, são as que mais nos decepcionam.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A Fazenda dos Florence

Sempre soube dos rumores a respeito da propriedade dos Florence. Na pequena cidade onde nasci nenhuma criança se aventurava ao longo da estradinha de terra que levava aos portões enferrujados da velha fazenda ao sul. Desde cedo, em suas residências, lhes era ensinado a temer a estranha família. Ao longo dos anos faziam com que acreditassem que os Florence eram malvados, perigosos, diabólicos. Mas era mais do que isso. Lembro-me de que, certa noite, ao pé da lareira com meu pai, o ouvi contar para todos nós, de sua casa, como a triste família se havia perdido nos caminhos das trevas; como havia trocado as bençãos de Deus pelas falsas promessas de fortuna feitas  pelas coisas que andam no inferno e que eles evocavam graças aos poderes da velha matriarca. Ainda me causa calafrios a maneira como meu pai parecia acreditar em tudo o que contava e a forma como ele nos advertia para manter distância, pois aquelas pessoas eram monstros reais que, em noites enluaradas, vagavam soltos dentro dos limites da velha propriedade. "Foram os demônios que os mudaram, meus filhos" dizia meu pai, e seus olhos faiscavam iluminados pelas chamas vermelhas do fogo voraz na parede.
Depois que cresci, deixei a localidade e me mudei para a capital. Meus pensamentos se voltaram para coisas mais importantes. Estudei, graduei-me com honras no curso de Física e assinei um contrato com uma multinacional. Casei-me com uma mulher cuja beleza impossibilitava-me de admitir, mesmo lá em meu íntimo mais profundo (este que sempre acaba assomando em nós nas horas da madrugada), que pudesse haver no mundo algo tão horrendo quanto o que diziam existir em minha terra natal. Hoje entendo que estas histórias sempre me acompanharam e que todo o meu destino convergiu para a noite fatídica de que vos falarei agora.
A última lembrança que guardo de meus tempos de criança é de ouvir a gritaria das pessoas na praça central. Enfurecidas, elas corriam em torno de uma carroça numa noite de inverno. Havia armas nas mãos de muitos e a exigência de que os estranhos Florence devolvessem aos pais uma menina loura que desaparecera. Recordo-me do velho xerife tentando conter a massa que surpreendera alguns membros da amaldiçoada família tentando comprar medicamentos em uma farmácia.
Mas o que me toca mais profundamente até hoje é a lembrança do olhar que me lançou o mais novinho dos quatro que vi. Um garotinho enfermiço e de pele pálida e suja que me olhou de cima da carroça cercada por cidadãos ensandecidos. O pavor, o medo em seus olhos, causou-me repulsa àquelas pessoas; pois me fez sentir, de uma só vez, o peso dos anos de discriminação e banimento a que vinham sendo submetidos todos daquela fazenda isolada. Aquela criança, que como eu ainda olhava o mundo de baixo, já não era apenas mais um menino. Era um homem triste e assustado. Um pobre diabo acuado por todos os lados que perdera a infância antes mesmo de tê-la conhecido.
Nestes meus dias finais, quando não sei se o que me matará primeiro será a velhice, o câncer ou a vilania desta cidade grande e impiedosa, digo que o que havia de errado com aquelas pessoas dos Florence (a despeito daquilo que vi, à noite, em frente aos portões da velha fazenda - e que pode perfeitamente ter sido apenas o fruto de uma mente viciada) era tão somente o fato de eles serem pobres e, oriundos de distantes terras estrangeiras, manterem costumes diferentes dos da comunidade que tanto os demonizava. Penso comigo, em meio às minhas inúmeras reflexões de velho, se não foi pelo que presenciei naquela praça que resolvi, tempos depois, deixar a cidade. Acho que a vergonha cobriu meus passos desde então.
Foi assim que decidi, após a morte de todos que me eram caros, e quando a solidão deu asas à minha disposição para viajar, voltar à velha terra para saber o que afinal fora feito dos miseráveis fazendeiros. Sentia que pediria mil desculpas a qualquer deles que encontrasse pelo caminho.
Desembarquei no início da noite na mesma praça central que tanto povoara minhas más lembranças por mais de cinqüenta anos. O ônibus que me trouxera só perdia em decrepitude para aquele horrendo centro em ruínas. Espantava-me e me mortificava ver que nada mudara! Tudo permanecia exatamente como eu deixara e, por alguns instantes, esperei mesmo ver a carroça dobrando mais uma vez a esquina perseguida pelos vândalos locais.
Na verdade aproximava-se um veículo escuro do ponto em que a principal cruzava com a dezesseis. Parou diante de mim e o motorista abriu uma porta ruidosa que já tinha visto dias bem melhores.
— Ei, Chapa! – Era meu amigo Warren Nesbel. Não era mais apenas gordo como antes. Agora estava calvo e abatido.
Depois que conversamos e relembramos aquilo que ainda não havíamos relembrado ao falarmos ao telefone no dia anterior, agradeci sua hospitalidade recebendo-me por dois dias em sua residência e, sem muita cerimônia, lhe pedi o carro de empréstimo.
— O que vai fazer? – Perguntou ele mesmo sabendo do que se tratava. E emendou:
— Olhe, amigo, nós não queremos saber deles. Pelo que me consta nem existem mais. Aquela terra toda está abandonada. Ninguém vai lá! Assim como sempre foi.– E me olhou com uma expressão realmente apreensiva em seu semblante flácido. – ah, o garotinho.. .– continuou ele. – O que te olhou... Não sabemos nada dele. Pode ainda estar por lá. – Depois ele se calou diante de meu olhar impassivo. E entregou as chaves.
Quando ia saindo da frente de seu endereço, ele me segurou pelo braço.
— Wilfred, por favor não vá lá. Deixe amanhecer pelo menos. Aquele lugar é um horror à noite.”
Mas eu estava irredutível e fiz menção de soltar meu braço de suas mãos. Ele afrouxou a pressão e, por fim, me largou.
Depois que dei a partida no motor, no entanto, ele bateu à janela do passageiro.
—Wilfred – disse ele. – Não saia do carro. Você não sabe o que anda por lá, no escuro! – Depois me deu as costas e entrou na casa bem iluminada. Eu sabia que ele me aguardaria e que, se houvesse alguma demora que julgasse inaceitável, chamaria a polícia e a mandaria em meu encalço.
Devo confessar que não foi sem um mínimo de apreensão que tomei a estrada abandonada que levava à fazenda dos Florence. Era de terra batida e dominada por árvores de copas tão espessas que tornavam a escuridão da noite ainda mais pétrea e intransponível. Tudo o que se podia delinear na escuridão fora do carro eram os raios de uma lua cheia que fazia vazar seus raios por entre as árvores e lançava, aqui e ali, barras de luz amarelada na estrada adiante. A fantasmagórica luminosidade ocre me possibilitava divisar vagamente partes do sombrio interior da floresta que margeava o caminho.
Em certos trechos a estrada era tão estreita que eu tinha a impressão de que o veículo não conseguiria seguir adiante, pois ficaria preso às margens altas pelos retrovisores. Do nível do solo, um observador a pé se sentiria como se subjugado por aqueles morros que se elevavam desde a beira do caminho e partiam terreno a dentro até atingirem as elevações mais altas no horizonte. A região era, assim, sem dúvida, terreno fértil para as fantasias do povo simples local e ali já haviam sido avistadas todo tipo de abominações horrendas atribuídas, obviamente, à maldição diabólica dos Florence.
De repente, a despeito de minha situação bizarra, vagando em alta madrugada por uma estrada abandonada em direção ao local onde diziam que monstros erravam ferozes e famintos, surpreendi-me buscando na memória algo que quebrasse a aura negativa que aquele lugar insistia em moldar em meu imaginário. Lembrei então de quando eu era um garoto de cerca de nove ou dez anos e Ernest Florence costumava brincar nas terras de nossa família. Saía da propriedade de seus pais e atravessava a cidade até alcançar nossa fazenda. Ali, pulava a cerca e escalava o grande carvalho que havia num ponto ermo da propriedade. Algumas vezes eu o avistava ao longe recortado contra o poente, magro, cabisbaixo, solitário em meio aos galhos balouçantes. Recordei a vez em que eu fora ao seu encontro. Por algum motivo ele não se apressou em se afastar como normalmente fazia quando alguém tentava se aproximar; também por esta época a perseguição brutal e imoral a que sua família era submetida ainda não alcançara os paroxismos do famigerado “dia da praça”.
Ele simplesmente saltou dos galhos da árvore e ficou lá parado me observando diminuir a distância entre nos dois. Era louro, tinha olhos azuis aguados e um rosto afilado marcado por sarnas. Notei um número exagerado e inusitado de pelos escuros que brotavam precocemente de seu pescoço e aquilo me levou a crer que fosse bem mais velho do que eu imaginara ao vê-lo apenas de longe.
De repente ele sorriu para mim. Era algo estranho o seu semblante; como se, na verdade, não soubesse sorrir e se esforçasse para emitir uma imitação canhestra de um sorriso. Seu rosto, neste momento, me lembrou os dos manequins das lojas do centro. Depois ele me deu as costas e correu. Com incrível agilidade saltou por sobre a cerca e desapareceu rapidamente pela estrada.
Fiquei parado em baixo do velho carvalho imaginando como seria a vida de um garoto como aquele; nos motivos pelos quais diziam que ele e os seus eram monstros. E minha imaginação ia muito além do que costumavam chegar as imaginações das crianças de dez anos de meu tempo!
De súbito um brilho incomum me fez despertar deste semi-transe em que eu mergulhara, em meio às minhas recordações, e me trouxe bruscamente de volta à estranheza daquela estrada escura. Pareceu-me notar um reflexo amarelado e cintilante à margem esquerda do caminho. A velocidade do veículo, no entanto, não me permitiu vislumbrar nada com exatidão e, provavelmente, forneceu-me uma impressão errônea de ter avistado, na verdade, dois olhos enormes me espreitando do escuro. Perscrutei o retrovisor, mas nada mais pude divisar no trecho por onde passara.
À minha frente surgiu então o portão principal da propriedade dos Florence. O vento aumentara consideravelmente e ao estacionar o carro no acostamento, e desligar o motor, mesmo com os vidros erguidos pude ouvir os gemidos que ele provocava quando passava por entre as árvores na floresta. Mantive os faróis acesos pois percebera que a cerca de madeira da fazenda balouçava muito embalada pela forte movimentação do ar. No entanto a escuridão era tamanha que pouco as luzes do carro me ajudavam. Resolvi ignorar os avisos de meu amigo da cidade e saltei para fora do carro.
O cenário no exterior era insuportável. Não havia, de fato, alma crente que ali se postasse sem sentir no coração as fisgadas de um medo sobrenatural que eram incontroláveis e involuntárias. De minha parte senti meu corpo sendo percorrido por calafrios que jamais imaginei serem possíveis.
Ao longe a sede da fazenda se encontrava envolta numa escuridão tão densa que seu peso parecia incidir violentamente sobre minhas costas. A gigantesca silhueta negra da construção rústica fazia lembrar algum deus mitológico adormecido e mergulhado nas trevas; num caos de ventos violentos e gemidos agonizantes.
Fiquei parado diante dos portões de madeira apodrecida. Não podia acreditar que as pessoas da cidade simplesmente não sabiam o que ocorria naquela fazenda; ou não sabiam sequer se estava ou não habitada.
Subitamente minha atenção foi atraída por um movimento na cerca de arame que passara a se agitar de uma forma que não condizia com o sopro do vento. Arqueara-se como se pressionada para baixo por algum peso extraordinário. Olhei para a escuridão que se estendia ao longo, para o lado esquerdo, e com esforço pude divisar um vulto grande equilibrando-se sobre a malha farpada de aço. Assemelhava-se á uma grande ave que, empoleirada na cerca, tivesse as asas abaixadas. Depois o vulto emitiu um pio agourento que me pôs em corrida desesperada na direção do carro.  De lá os faróis iluminavam parte do terreno para além do portão de entrada. E, banhadas pela luz difusa, avistei paradas na escuridão criaturas que por um momento me tiraram a sanidade. Eram como imensas corujas negras que me fitavam com imensos olhos amarelados.
Entrei no automóvel e tranquei as portas imediatamente. Logo minha respiração ofegante e descompassada encarregou-se de embaçar os vidros das janelas. E não pude ver exatamente as coisas que me cercavam do lado de fora. Sei que bem ouvi seus gritos e risadelas. E ouvi quando piaram lamentosamente do alto da cerca e de dentro da fazenda. Depois creio que desmaiei ou o pavor me conduziu para mundos dos quais depois não tive qualquer recordação.
Quanto retornei à lucidez ainda estava dentro do carro. A luz do dia já ia alta e eu continuava parado diante dos portões da fazenda dos Florence.
Havia um homem do lado de fora. Ele olhava curioso para o interior do veículo e quando me viu abrir os olhos deu um salto para trás como se assustado. Algo em seu rosto me era extremamente familiar e tão logo me recompus e o olhei bem pude reconhecer o rosto do estranho garoto que me fitara na praça central. Estava bastante idoso, assim como eu, mas sua compleição física era a de um homem mil anos mais velho.
Saí do carro e fiquei diante daquele esboço de dias longínquos. Seu semblante era tão cansado e triste que me mortificou ainda mais que a lembrança do horror da noite anterior. Não disse nada e simplesmente ergueu uma das mãos na qual trazia um copo com água que me entregou. Depois, com um sorriso tímido, me deu as costas e caminhou para o portão entreaberto onde o aguardavam outras pessoas tão tristes e assustadiças quanto ele próprio. Não carregavam, entretanto, nenhum traço das monstruosidades que eu avistara na escuridão.
Deixaram-me parado na estrada ensolarada repleto de pensamentos estranhos e conflitantes. Será mesmo que havia monstros naquele lugar? Ou minha imaginação, movida pelo medo, trabalhara contra mim naquela noite?
Foi assim, confuso e abalado, que retornei à cidade, devolvi o veículo emprestado sem dizer uma palavra e nunca mais voltei.
Agora, que já não tenho mais muito tempo nesta vida, sinto que se romperam em mim muitas das convicções de outrora. E já não sou mais capaz de sair de casa à noite sem primeiro esquadrinhar cuidadosamente os céus e os lugares escuros ao meu alcance para me certificar de que não estou sendo vigiado por estranhos e imensos olhos amarelados.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O Beijo - Final


        Naquela noite, Lúcio não conseguiu dormir. Revirou-se no leito por algumas horas. O sono não vinha. Por volta de meia noite, resolveu sair da cama. Abriu a janela do quarto para conseguir se refrescar com algum vento, já que o suor encharcava a sua roupa de dormir. Ao abrir a janela, o brilho fugaz da lua cheia invadiu seu quarto. Não foi o vento, mas a luminosidade que lhe trouxe o alívio de que precisava. Respirou fundo apoiado na janela. Colocou rapidamente uma roupa, pegou seu candeeiro e saiu pela rua.
      Tudo estava muito escuro e o candeeiro não fornecia a claridade suficiente para andar com segurança. Mas a lua era tudo de que precisava. Sua cabeça fervilhava com os acontecimentos do dia que se passou. Naquela manhã havia puxado a alavanca que enforcou Serena, retirado seu corpo sem vida da corda e, junto com mais dois jovens do vilarejo, a levou para uma clareira no meio da floresta. Cavaram um buraco na terra fofa e a deixaram lá. Para que, segundo suas próprias palavras, os demônios a levassem para longe da vila. Agora imaginava se não era essa a vontade dela, quando o aprisionou em seu sonho e o torturou. Será que a desculpa que deu para a população não acabaria sendo a verdade?
      Lúcio andava a esmo sem saber para onde ia. Mas seus passos decididos, e ao mesmo tempo cambaleantes, faziam parecer que sabia exatamente seu destino. Apertava os olhos tentando se acostumar a pouca luz. Fazendo isso pode reconhecer a certa distância uma cabana mal cuidada. Lembrou-se de quando voltaram da floresta. Carregara uma das pás que usou para enterrar Serena. Lembrava de tê-la jogado de lado no chão assim que passou pela cabana. Enquanto andava em direção ao casebre decrépito, tentou divisar no chão o formato da pá. Teve que andar curvado, aproximando o candeeiro da relva espessa, para conseguir encontrá-la. Pegou-a com naturalidade e a apoiou no ombro.
      Logo atrás da cabana, começava a floresta. E foi ali que ele entrou.
      A luz da lua era filtrada pelas copas das árvores. Ele podia ver apenas alguns pontos iluminados nos troncos e no chão. Esses pontos não ajudavam em nada a desviar das raízes das árvores e de galhos caídos. Usava a pá como uma bengala para ajudar a andar. Mesmo assim tropeçava com freqüência. Chocava-se com os ombros nos troncos das árvores. Largou a pá algumas vezes para aparar a queda com as mãos. Isso lhe causou alguns arranhões e hematomas pelo corpo.
      Os sons da floresta entravam em sua cabeça com força. Era como se cada pequeno ruído viesse de todos os lados possíveis. O rastejar das criaturas passando por ele não faziam com que ele parasse. O bater de asas de alguma ave, ou talvez um morcego, passou rente ao topo de sua cabeça. Ouviu um resmonear animalesco, suave, vindo de longe. Pelo som, não conseguiu precisar o tamanho do animal. Poderia ser desde um pequeno mamífero inofensivo até... Nem queria pensar.
      Mas isso não importava.
      Seguiu com a determinação de um desbravador por aquela floresta. Nada era capaz de impedi-lo. Mas de onde vinha aquela força? O que fazia com que continuasse sem nem bem saber por onde andava? Sentia que uma força o guiava. Sim! Disto tinha certeza! Uma força maior que ele, que estava além de qualquer explicação. Tinha alguma idéia de onde ia. Mas não era devido a nenhuma razão que lhe fosse compreensível. Apenas uma sensação de que nada poderia fazer ali, a não ser...
      De repente algo em meio às árvores lhe chamou atenção. Uma claridade estranha em meio a tanta escuridão. Tomou direção, sedento, rumo àquele local que espargia ramificações tênues de luz. Parecia satisfeito em vê-lo, como se o tivesse esperando desde o momento em que pôs os pés fora dos limites da vila. Afastou uma cortina fina de galhos e folhas com a pá. E pode ver o que era aquela luz mortiça dentro da noite. Era uma grande clareira, que formava quase que um círculo perfeito circundado pelas árvores. Se alguém perguntasse, poderia dizer que, além de tudo, o brilho lunar parecia mais intenso ali. Colocou o candeeiro, que surpreendentemente ainda estava aceso depois de tantas dificuldades na floresta, no chão. Foi até o meio da clareira, aonde um monte de terra se diferenciava de todo o resto do terreno. É claro que sim, aquela terra fora revirada mais cedo. Um corpo fora enterrado ali. E ali ainda permanecia. Sem pensar muito no que pretendia fazer, porque para ele era muito óbvio, Lúcio fincou a pá na terra, tirou o primeiro punhado e o atirou para trás.
      Praticamente não piscava enquanto fazia o seu trabalho. Apenas olhava fixamente para o barro revolvido concentrando-se em cada monte de terra que jogava para trás. De repente algo o fez diminuir a velocidade em que estava cavando. Retirou punhados menores de terra, com mais cuidado do que antes. Decidiu, naquele momento, que o uso da pá não era mais necessário e pulou dentro do buraco. Ajoelhou-se no chão e começou a afastar a terra com as mãos. Logo ele encontrou uma ponta de tecido preto sabendo o quanto faltava para desenterrá-la. Trabalhou mais rápido com as mãos até que conseguiu afastar terra o suficiente para erguê-la do chão. Colocou os dois braços por debaixo do corpo e a pegou no colo. Colocou-a na beira da cova e saiu pelo outro lado. Deu a volta e a ergueu novamente. Olhou em volta descobrindo um monte de folhas secas caídas, das quais foi de encontro e a acomodou naquela cama improvisada.
      Lúcio a olhava incrédulo! Havia feito todo aquele caminho, tido todo aquele trabalho quase que inconscientemente. Não pensou nem por um momento no que estava fazendo, em qual era a finalidade daquilo tudo. E se desesperava porque continuava sem saber. Sufocou os gritos, nos recônditos mais profundos de sua mente, que pediam por um pouco de lucidez e se deixou levar por aquele instinto que o conduzira até onde estava. Ajoelhou-se e desenrolou o tecido que a envolvia. Lá estava Serena, mais branca do que nunca, apresentando na alvura da pele um contraste violento com o preto de seus cabelos. Um detalhe avultava-se em seus traços fisionômicos! Lúcio não tivera oportunidade de ver muitos cadáveres em sua vida, mas desconfiava de que os lábios dela deveriam estar roxos, o que não acontecia. Estavam vermelhos, cheios, viçosos, como se ela tivesse acabado de cobri-los com batom. Ela era uma moça bonita, mas algo mais aconteceu quando ela morreu. Serena parecia irresistível, seus lábios convidativos estavam entreabertos, deixando entrever um pedaço bem pequeno de seus dentes muito brancos.
      Lúcio susteve a respiração diante da visão dela. Ela estava estonteante. Duas coisas passaram pela cabeça dele nesse momento. Uma delas era uma sensação de que viera até ali para devolver alguma coisa. A outra era uma vontade incontrolável de beijá-la. Não sabia ao que se devia o primeiro. Mas não resistiu ao segundo.
      Primeiro levemente. Depois pressionou mais os lábios contra os dela. Percebeu algo que não deveria estar acontecendo, primeiro ignorou a sensação... Mas depois não pode deixar de notar: Os lábios se moviam sob os seus. Abriu os olhos e se afastou sobressaltado. Os olhos dela estavam abertos fitando o céu acima da clareira. Não havia expressão neles. Eram os mesmos olhos sem vida que subiram à forca. E mais uma vez ele sentiu o mesmo impulso de beijá-la. Curvou-se novamente, e agora, a resposta dela era mais evidente. Ele podia senti-la retribuindo o beijo. Sentia o movimento dos lábios dela muito melhor agora. Ouviu um murmúrio, como se desejasse falar alguma coisa. Afastou-se por um momento:
      — Disse alguma coisa?- Perguntou ele imaginando o quão surreal era perguntar isso a uma pessoa que estava morta há apenas alguns segundos.
       — Mais... – Respondeu ela. Sua voz era pouco mais do que um sussurro deixando transparecer uma fraqueza contrária ao seu próximo movimento.
      Serena mais do que rapidamente, ergueu as mãos e segurou o rosto dele contra o dela. O beijava com fúria e violência. Lúcio não tentou se soltar e aproveitava cada momento daquele beijo doce. Até que reparou uma coisa, um pouco tarde demais: Ele estava ficando sem ar. Tentou empurrá-la gentilmente, mas ela não cedeu um milímetro se quer. Ele imprimiu mais força da vez seguinte, também sem sucesso. Serena parecia ter voltado dos mortos com uma força descomunal. Cada segundo que passavam com os lábios colados era um martírio. Sentiu todo o ar sendo sugado se seus pulmões. A mulher antes morta continuava deitada segurando o rosto dele colado ao seu com naturalidade, enquanto ele tentava desvencilhar-se do aperto dela.
      Aos poucos Lúcio foi perdendo as forças e lutando menos contra ela. Ainda apertava as mãos dela tentando tirá-las quando ela finalmente o soltou. Ele rolou para o lado ainda fraco. Apesar de estar livre, ainda não conseguia puxar o ar de volta para seus pulmões. Ficou se contorcendo no chão com as mãos agarradas ao pescoço como se aquilo fosse fazê-lo voltar a respirar. Suas unhas deixavam marcas vermelhas em sua pele na sua agonia por um suspiro.
      Serena se sentou onde estava. Olhapu em volta piscando, tentando acostumar os olhos a luz depois de tantas horas na mais absoluta escuridão. Um leve sorriso começou a se formar em seus lábios quando sentiu um toque em seu braço. Olhou para o lado e viu Lúcio. Suas mãos crispadas tentavam alcança-la. Seus olhos injetados de sangue devido a alguns vasos rompidos suplicavam por ar.
       — Me desculpe. – Disse Serena tranqüila – Eu havia me esquecido de você.
       Ela se levantou e andou em direção aos pés dele. Pegou os dois e começou a puxá-lo para a beira da cova ainda aberta. Serena parecia não fazer muito esforço para isso. E começou a falar com ele:
       — Sabe, eu tenho que agradecer a você por guardar minha respiração para mim. – Disse em um tom de conversa normal. - Foi por isso aquele beijo antes da forca. Sinto muito se eu te fiz pensar que eu queria algo mais com você. – sufocou um riso baixo – Mas você sabe, nós não tínhamos futuro. Afinal, eu morri alguns segundos depois, certo? Claro que você sabe. Foi você quem me matou não foi? – O puxava devagar para ter tempo de falar tudo que precisava para ele. – Mas enfim, como eu havia morrido, eu precisava de um empurrãozinho para voltar a respirar... Então, peguei a sua capacidade de respiração também. Espero que isso não seja um problema.
       Lúcio agarrava o pescoço com uma das mãos, e com a outra ele tentava se segurar a terra para não ser arrastado. Mas isso não mudava em nada o seu destino.
       — Aposto que quer saber por que ainda não morreu não é? Bem, eu vou te contar. Para voltar à vida, eu não precisava de toda a sua respiração. Então eu deixei você com um pouquinho dela. Isso vai matar você? É claro que vai! Só que bem mais lentamente.
       Ela chegou a beirada da cova e soltou os pés dele no chão. Suas pernas se contorciam tentando fugir, mas de pouco lhe valia o esforço. Serena se abaixou ao seu lado e se aproximou de seu ouvido. Disse em pouco mais que um sussurro:
       — Aposto que foi uma agonia guardar isso para mim, não foi? Tanto que você mal pode dormir essa noite. Bem...
       Ela se levantou e o empurrou para a cova com a ponta da bota que usava. Ele caiu de barriga para cima. Seus olhos piscavam com força. Chutou um pequeno punhado de terra para dentro da cova.
       — Bons sonhos. – Piscou um dos olhos, soprou-lhe um beijo e afastou-se deixando-o a sua própria sorte.
      Da parte de Lúcio, a proximidade da morte não era exatamente o que lhe preocupava naquele momento, mas, sim, o quanto o fim derradeiro demoraria a chegar.
      Serena saiu andando tranquilamente para o seu novo destino, em direção oposta a do vilarejo de onde viera. Entrou na floresta com o alívio de um viajante que volta para casa. Sentiu o perfume das folhas e da noite, deixando para trás os moradores de uma vila que a viram morta, apartando-se de uma clareira cheia apenas dos últimos suspiros de um homem... mas que logo estaria vazia novamente, submissa a luz mortiça da lua daquela noite inesquecível.

O Beijo - Parte II

        A mulher se arrumava calmamente. Apertou os cordões atrás do espartilho, bateu a poeira das botas que usava, jogou a cabeça para trás e sacudiu os longos cabelos negros como as asas de um corvo. Seus olhos estavam em paz, olhando para fora da janela gradeada. Quem a visse assim, nunca imaginaria que estivesse a poucos minutos de ser enforcada. A sua prisão era improvisada. Ficava em baixo da sacristia. Um lugar bem parecido com uma masmorra, mas não tão ameaçador. A janela pela qual olhava ficava rente ao chão do lado de fora. Não podia deixar de ter pensamentos perversos sobre os motivos que levaram o padre a ter aquele lugar mantido ali.
      Ouviu a porta do andar de cima ranger e depois passos na escada. O padre descia com uma bíblia e uma cruz na mão. Um sorriso brincou em seus lábios “será que ele pensa que eu sou um vampiro?”.
      O padre abriu a bíblia e beijou a cruz. Começou com a sua ladainha. A cabeça de Serena fervilhava de ansiedade. Não estava com paciência para aturar aquilo.
      — Hei! – Disse ao sacerdote – Você não quer saber se eu me arrependo de meus pecados antes de começar a encomendar minha alma?
      O padre a olhou, incrédulo, por cima dos óculos:
      — E você se arrepende?
      — HÁ! – Serena soltou uma sonora risada – Claro que não! – Se apoiou na grade para se aproximar do padre. – Então, acho que você está perdendo o seu tempo, não está? Não use o nome do seu Senhor em vão. Foi Ele mesmo que disse.
      O padre fechou a bíblia com um estalo. Tirou os óculos com raiva.
      — O que você pensa que está fazendo? Por acaso tem idéia do que está para acontecer? – O padre gritou agitando a bíblia.
      — Sim. – Serena disse com toda a calma – Por isso estou tentando fazer com que nenhum de nós perca seu precioso tempo. – E deu uma piscadela para o padre.
      O velho religioso respirou fundo, tentando não perder mais a calma. Olhou para o chão procurando alguma coisa. Jogada perto da parede estava uma corda já gasta pelo tempo. Colocou a bíblia em um bolso da batina e deixou a cruz recostada na parede quando se abaixou para pegar a corda.
      — Vire-se de costas. – disse o sacerdote.
      Ela se virou e sentiu as cordas sendo amarradas firmemente ao seu pulso. Estava a minutos de ser enforcada, mas não poderia deixar de perturbá-lo:
      — Hmmm... Padre... – usou a sua voz mais sensual - achei que você tivesse feito voto de castidade.
      Estava de costas e não tinha como vê-lo. Mas de algum modo sabia que com esse comentário, o velho havia corado até a raiz dos cabelos. Ele a guiou até as escadas. Serena subiu lentamente e fez a sua última brincadeira com o padre:
      — Você não credita realmente que eu sou uma bruxa, não é?
      — C - Como? – O padre não se sentiu confortável com essa pergunta. – Por que diz isso?
      Serena sorriu:
      — Se acreditasse... acharia mesmo que essas cordas seriam suficientes para me impedir?
      O padre olhou para as cordas. Tão velhas e gastas. Se realmente fosse uma bruxa ela se soltaria facilmente dali. Mas admitir isso na frente do povo, dizer que estava errado. Nunca. A condenada era uma bruxa, sim. Como diria que seus anos dedicados à fé estavam errados? O padre nunca saberia se estava diante de uma verdadeira bruxa. Nunca saberia se outras que foram condenadas também não eram. Tinha nesse momento o assassinato de muitos inocentes nas suas costas. Esse pensamento o atormentaria para toda a vida. E assim, sem que percebesse, Serena jogou um feitiço nele. O clérigo se culparia pelo resto da vida por ter mandado essa jovem para a forca.
      Quando os dois saíram da sacristia dois jovens a esperavam. Um desses jovens, Serena já conhecia muito bem. Deu um passo a frente em sua direção:
      — Sabia que conseguiria. – Disse bem baixo para que só Lúcio ouvisse.
      O jovem olhou desconfiado para os lados para ter certeza disso.
      — Agora... – continuou ela – o seu prêmio.
      Quase que junto ao fim de sua frase, Serena se atirou sobre ele. Tinham quase a mesma altura e não houve dificuldade para ela alcançar a boca do seu cúmplice. A reação de Lúcio foi a esperada, segurou-a pela cintura retribuindo-lhe o beijo. Um beijo apaixonado de dois amantes em uma despedida. Todos na cidade já estavam reunidos ali, e todos pararam diante daquela cena. O beijo acabou quando Serena descolou seus lábios dos de Lúcio dizendo:
      — Acho que temos algo a fazer agora.
      O jovem ainda estava meio atordoado, sem saber como reagir. Olhava incrédulo para Serena. Deveria escoltá-la até a forca, mas isso não foi preciso. Quando ele conseguiu se mover novamente, saindo do seu estado de estupefação, ela já estava na metade da escada que levava ao patíbulo. Apressou-se para alcançá-la. Ficou ao seu lado no tablado. A jovem estava sobre a marca na madeira que indicava o alçapão. Foi Lúcio quem colocou a corda em seu pescoço enquanto Serena olhava para longe. Seus olhos pareciam não estar mais ali.
      O padre fazia a sua prece em voz alta, fora do cadafalso. Ele perguntou se a condenada queria proferir suas últimas palavras. Nenhuma palavra da parte dela. O velho não pode, ainda, deixar de respirar aliviado. Tinha medo de que a criatura fizesse mais alguma piadinha ou algum comentário como os que fizera na prisão. Diante do silêncio, ele deu por encerrada a cerimônia de execução.
      — Já que não tem nada a dizer, que se cumpra o seu destino. Que Deus tenha piedade de sua alma.
      Lúcio puxou a alavanca que fez o alçapão do tablado cair. O corpo dela despencou. Alguns desviaram os rostos na multidão. Outros aplaudiram. Lúcio apenas a olhou cair. Sentiu um frio na espinha quando seu corpo sumiu de sua vista. Um vazio tomou conta do seu estômago, algo que deveria ser sentido à beira de um penhasco. Sentiu que ali, com um simples movimento de braço, havia selado não só o destino daquela moça, mas o seu próprio. Algo estranho havia acontecido naquele enforcamento. Muito estranho! Quando a corda ficou completamente esticada, antes que o laço lhe quebrasse o pescoço, o corpo dela parecia não ter um sopro de vida pelo que lutar em agonia, como se ele houvesse pendurado ali uma pessoa já morta.

O Beijo - Parte I

       — Ela não deve permanecer aqui! – Ele repetiu a frase mais uma vez.
       — Você se refere a um enterro cristão? – O padre perguntou incrédulo.
      — Não! Eu digo na floresta ao norte da cidade.
      Um silêncio reinou na sala onde se reunia quase todos os aldeões da comunidade. A pauta da vez: Um jovem, Lúcio, queria impedir que uma jovem, Serena, fosse queimada sob a acusação de bruxaria. Não que ele quisesse que ela fosse poupada. Sua idéia era de que a moça fosse enforcada e enterrada, longe da vila, mais precisamente dentro da densa floresta que cercava três quartos do lugar. Tudo aconteceria no dia seguinte e as coisas estavam longe de acabar.
      Lúcio tentou convencer a todos de todas as maneiras:
      — Se nós a queimarmos, suas cinzas continuaram aqui. – disse ele.
      — E que mal as cinzas de uma bruxa morta fariam a nós? – Gritou uma senhora na última fileira. Um murmúrio geral deu mostras de concordância.
      Lúcio abaixou a cabeça. Não queria dizer a verdade. Não queria admitir que todo o trabalho que estava tendo era por culpa dos sonhos que tivera. Naquela noite não conseguira dormir. Sonhos diversos, em que Serena falava com ele e dizia-lhe que ela não poderia ser queimada. A jovem o torturava asseverando-lhe que se fosse queimada, todos na cidade sofreriam mais do que ele estava sofrendo naquele momento. Lúcio sabia o tempo todo que se tratava de um sonho, mas não conseguia acordar. Serena afirmara que ele acordaria quando ela quisesse ou poderia muito bem não acordar. Era ele quem escolhia. No sonho ele tinha cordas que amarravam seus pulsos e quando acordou naquela manhã as marcas das cordas ainda estavam lá, vermelhas e a pele esfolada como se estivesse amarrado por um longo tempo. Havia sinais de queimaduras em sua barriga e longos lanhos de chicotadas em suas costas. Pelo seu próprio bem, deveria convencê-los de que a suposta feiticeira não poderia ser queimada. Não sabia se conseguiria mentir na frente de toda a cidade... Mas podia disfarçar a verdade.
      — Eu tive um sonho. Uma visão. – Disse o jovem finalmente.
      Todos ali se manifestaram ao mesmo tempo. O Padre tentava acalmar os ânimos.
      — Esperem, esperem. – interrompeu o sacerdote muito curioso. – Vamos ouvir o que o jovem Lúcio tem a dizer sobre isso.
      Lúcio limpou a garganta e começou a disfarçar a verdade.
      — Ontem à noite eu tive um sonho. Nele um anjo falava comigo. Dizia que não queria ver uma comunidade de fiéis tão devotados cometerem um erro tão grande. - Lúcio tentava parecer tomado de uma grande emoção devido à revelação - Disse que se a queimássemos as suas cinzas permaneceriam em nosso solo. E essas cinzas impuras trariam o mal para nós. Este mensageiro celestial afirmou que a única maneira de tirá-la daqui seria enforcando-a. Devolvendo seu corpo inteiro para a floresta, onde os demônios a levarão para as trevas de onde veio.
      O silêncio reinou naquele lugar. Todos se olhavam espantados. Ninguém conseguia acreditar no que tinha ouvido. Todos comentavam baixo entre si.
      O padre foi o primeiro a se pronunciar:
      — Bem, irmãos... - Tirou os óculos e limpou-os na batina. – O que nós ouvimos aqui é uma experiência única. Podemos nos considerar um povo abençoado por Deus. Se o Nosso Senhor se deu ao trabalho de mandar um de seus anjos nos avisar do mal que essa mulher nos causará, nós somos realmente um povo do qual Ele se agrada. 
      O sacerdote juntou as mãos em frente ao corpo.
      — Irmão Lúcio, aproxime-se.
      Lúcio andou até o clérigo e se postou ao seu lado. Agora se referindo a toda a congregação o sacerdote disse:
      — Irmãos! Oremos! Vamos agradecer por essa graça!
      O padre conduziu a oração em altos brados. Lúcio, que estava ao seu lado de cabeça baixa e com as mãos entrelaçadas na altura da barriga, teve que conter o seu espanto quando viu que as marcas de cordas já não estavam nos seus pulsos. Tentou se mexer sem que ninguém reparasse. Percebeu que a dor das chicotadas nas costas havia sumido. Em meio às palavras empolgadas do padre, Lúcio pode ouvir uma risada que reconhecia muito bem. Era Serena! Pela falta de reação dos outros, só ele mesmo ouviu aquilo. Aquela risada esganiçada que lhe causava um frio na espinha. A risada cessou de repente, assim como surgiu. Quando o jovem achou que podia respirar aliviado, ouviu um sussurro, como se a bela feiticeira de seus sonhos estivesse de pé ao seu lado, com os lábios colados ao seu ouvido. O sussurro dizia:
      — Muito bem...

O Enforcado

   Final de chuva pela manhã, fim do período de ronda e café requentado esperando a passagem de serviço, um chamado!
   Era verificação de corpo encontrado. Na árvore distante da estrada um homem, estranho vulto mal vestido,  pendia rente a enxurrada. Cena de morte, fotos necessárias, isolamento de local e outras atitudes teatrais.
   No pescoço esticado um arame dava conta de ser o mortal instrumento. Olhos esbugalhados do sofrimento escolhido pareciam olhar para mim, confessando um arrependimento tardio. Morrera durante a chuva naquela solidão de vida, naquela desesperança.
   Em seu bolso uma velha carta de sua filha. Declaração de um amor agora findado nos galhos da terrível má escolha como solução de problemas.
   Uma garrafa pelo meio de cachaça, pelo meio de coragem, cheia de histeria, era na verdade a muleta da covardia. Matou-se por ter perdido o emprego no mesmo lugar onde muitos não querem trabalhar, mercê das tolerâncias e bolsas cada vez mais disseminadas por aí...
   Quem o julga?

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Churrasco de Rico e de Pobre...

TRAJE FEMININO:
DE RICO: Calça Capri de cor Clara DA Zara ou outra grife importada, bolsas L. Vuitton, Prada. Camisetinha básica branca DA Club Chocolate ou Doc Dog. Óculos Chanel, Valentino, sandalinha rasteira DA Lenny. Ela sempre chega sozinha, dirigindo o seu próprio carro.
DE POBRE: Mini-saia curtíssima do Hipermercado EXTRA, blusinha DA C&A estampada, tamanco de Madeira de salto altíssimo ou tênis de R$ 19,00 e bolinhas, óculos coloridos do camelô , é claro!!, piercing e anel no dedo do pé. Muitas usam biquíni por baixo, na esperança de tomar um banho de piscina.
TRAJE MASCULINO:
DE RICO: Bermuda Hugo Boss ou Richard, camisa esporte Siberian ou Brooksfield, óculos Armani e aquela caminhonete importada maravilhosa.
DE POBRE: Chinelo Rider, Bermuda Florida ou feita de uma calça jeans cortada com a barriga aparecendo, camisa do Corinthians ou do Flamengo jogada nas costas (else morrem de calor) e óculos de camelô na testa. Chegam de Monza ou de carona com mais oito pessoas.
A COMIDA:
DE RICO: Normalmente ele s não comem, quando comem é um pouquinho de cada coisa. Arroz com brócolis ou açafrão, farofa com frutas, filé de cordeiro, picanha Argentina, muzzarella de búfala. Sendo que cada coisa a seu tempo e pausadamente.
DE POBRE: Vinagrete, farofa com muita cebola, maionese, muita ASA de frango, lingüiça com pão de alho, costela e miolo de acém (que else juram ser mais macio que picanha!).
A BEBIDA:
DE RICO: Os homens, Chopp DA Brahma ou cerveja Heineken geladíssima. As mulheres, tônica Schweppes Citrus , água Evian ou Coca-Cola Light.
DE POBRE: Cerveja Itaipava ou Kaiser, geladas no tanque de lavar roupa cheio de gelo. Quem FICA tonto mais rápido, bebe intercalando água DA torneira. Muita caipirinha com Caninha DA Roça, Baré Cola e Guaraná Sarandi .
PRATO :
DE RICO: Normalmente beliscam uma picanha servida num enorme prato branco liso de porcelana, taças adequadas a cada tipo de bebida: água, chopp, refrigerante.
DE POBRE: Os tradicionais pratinhos de alumínio ou papelão, else ficam o tempo todo de olho na fila esperando diminuir. As bebidas são servidas em copinhos plásticos (reciclados) de 200 ml. (compra-se a quantidade exata do número de convidados) ou servem naqueles de requeijão ou geleia para OS convidados mais chegados: familiares, algum cabo DA PM, Corpo de Bombeiros, Escrivão DA Polícia,etc..
MÚSICA:
DE RICO: Jack Johnson, Maria Rita, música instrumental, Lounge Music e Jazz. Podem contratar um grupo que toca chorinho, mas com músicos formados pela Escola de Música DA UFRJ.
DE POBRE: Aquele pagodão de pingar suor, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e Revelação. Só CD's piratas (4 por 10,00) mídia azul. Não pode faltar o de Samba Enredo do ano nem banda Calypso. O importante é tirar a galera do chão, depois de umas 2 horas de churrasco, todos já estão dançando, independente das idades ou credos. Também rola uma Batucada improvisada com panelas, tampas ou qualquer objeto disponível que emita um som (cantam de Almir Guineto até Alcione). A mulherada tira a sandália, porque não estão acostumadas, e bota a poeira pra subir.
O CHURRASQUEIRO:
DE RICO: Contratado de uma churrascaria famosa. Trabalha com um uniforme impecável e traz consigo toda equipe necessária para atender todos OS convidados.
DE POBRE: Amigo de um conhecido que adora fazer churrasco, e cada hora um FICA um pouquinho pra revezar. Normalmente é um cara barrigudo que FICA suando com uma toalhinha na mão (ele USA para enxugar o suor, limpar as mãos e o que mais precisar!). Adora ficar jogando cerveja na brasa para mostrar fartura!
O LOCAL:
DE RICO: Área coberta, com piso de granito, tem mesinhas, ombrelones e bancos DA Indonésia, num lindo jardim com piscina, mas ninguém se anima Dar um mergulho, pois a mesma está decorada com um lindo arranjo de flores tropicais.
DE POBRE : Normalmente na laje, com Sol quente na cabeça ou chuva para acalmar o fogo (então é improvisada uma lona de caminhão como cobertura, mas só para proteger a churrasqueira). Cadeiras só para quem chegar mais cedo (esses cedem o lugar para as grávidas que sempre chegam atrasadas), OS demais ficam em pé, esbarrando uns nos outros e pisando no seu pé, mas não tem problema porque a maioria tá descalço. Sem esquecer o tradicional banho de chuveiro, onde OS bêbados começam com a brincadeira de querer molhar todo mundo.
O FINAL:
DE RICO: Em no máximo 4 horas, cada pessoa sai em seu próprio carro. Mas saem em momentos diferentes, para que o dono do churrasco possa fazer OS agradecimentos a cada um com atenção.
DE POBRE: Dura no mínimo 8 horas e depois que todos já estão bêbados, o dono DA Casa diz que tem que trabalhar cedo no dia seguinte, mas o pessoal ainda quer fazer vaquinha para comprar mais uma caixa de cerveja. Quem não tem carro é de carona ou vai de buzão mesmo. (isso sem falar nos que passam mal, vomitam e precisam curar o porre, estabacados no sofá ou no tapete, antes de pensar em ir embora e naqueles parentes e amigos mais chegados que são Intimados a 'dar uma maozinha' na faxina do recinto!). O pessoal que tem carro, liga o som bem alto (pagode claro!) e sai buzinando, sorrindo e gritando : 'Valeu maluco!'

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Rápida Paixão...

Vida que vem e volta num segundo,
Traz consigo a alegria e a esperança,
Desfaz a insensatez que há no mundo
Num sorriso e o amor, ela é quem lança.

O perfume que ostenta, o ardor profundo
Que carrega no olhar... Nunca se cansa.
Quer beijar, abraçar, ir bem mais fundo
Para que eterna seja sua lembrança.

Pensando nela, vais dormir contente;
Logo despertar, louco por revê-la;
Vosso encontro, quiçá, será o começo.

Hás de tentar amá-la eternamente;
Vais ligar, escrever, querendo tê-la...
A propósito: tens seu endereço?

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