domingo, 28 de agosto de 2011

Ah, aquela ponte...

Eu sempre quis resolver todos os problemas do mundo. Observava tudo ao meu redor, era impossível não ver que havia muita coisa errada, mas eu ficava a me perguntar “por onde devo começar?”. Eu nunca soube, e morri sem saber.
Inicialmente eu pensei em ajudar algumas crianças carentes que, muito facilmente, encontrava na rua. Algumas trabalhando em semáforos, outras cheirando cola. Mas depois pensei comigo mesmo “eu ajudo elas… e depois? Isso não irá resolver o problema das outras”. É… eu desisti depois disso.
Passados alguns anos pensei em tirar os idosos da rua. Não era justo que eles vivessem toda uma vida e, no final, vivessem ali, sem uma cama, como eu. Em meus planos surgiu outro problema, como eu iria arrecadar fundos para criar um asilo? Eu não tinha dinheiro, vivia as custas de um trabalho mediano, nada que fosse suficiente para iniciar uma construção. Também desisti de ajudar os idosos.
Mais alguns anos se passaram, comecei a pensar em mim, deixar os problemas dos outros de lado. Em minha vida não havia muitos problemas. Até que encontrei o amor da minha vida, e aquele seria o ultimo amor. Eu tentei de todas as formas conquistar ela. Dei presentes belos, fiz os mais belos poemas que se pode fazer, mas eu não consegui.
Sabe o que era pior nisso tudo? Ela me dava esperanças, fazia com que eu acreditasse que ela iria me dar uma chance. Fui enganado até o dia em que ela veio até mim e disse "eu te odeio!". Depois disso vivi dias terríveis, eu não conseguia mais pensar direito, comecei a ter alguns pensamentos suicidas. Não foram só pensamentos, foi uma ação também.
Eu pensei em tudo, como seria, onde seria e se eu iria ou não deixar explicações. Decidi que fosse pulando de um lugar alto, assim eu comprovaria se a vida das  pessoas passa mesmo diante dos olhos, quando ela está diante da morte. Uma ponte seria perfeito. Eu não contaria a ninguém, quem iria entender esse motivo? Só quem já passou pelo mesmo para entender o que eu fiz.
Era um dia que, possivelmente, seria ensolarado. O mundo acabaria naquele momento, pelo menos o meu. Me joguei sem pensar duas vezes. E na minha cabeça não passou filme nenhum. Morri. Mais uma vez desisti de alguma coisa. Desisti da minha vida. Não é de se espantar, sempre foi assim minha vida toda.

Sem Sentimentos

– Me responde uma coisa?
- Pergunte.
- Mas responda sem usar a cabeça, certo?
- E uso o quê?
- Apenas o coração.
- Certo, mas fique sabendo que eu já o operei…
- Mesmo? Qual foi a cirurgia?
- Tirei o lado emocional.
- Sei. Pode me passar o número do cirurgião?
- Anota aí… Qual era a pergunta?
- Deixa pra lá. Vou operar amanhã.

Planta não, carne sim!


- Que tal almoçar uma salada?
Sofia é uma grande amiga minha. Há uns meses que se tornou vegetariana. O único hábito saudável que tem. Bebe todos os dias, não faz exercícios físicos e fuma muito. Como diria minha mãe: “fuma como uma caipora”.
- Eu tava pensando em ir a uma churrascaria…
- Ora, Julio, você vai mesmo comer um animal?
- Não, só uma parte dele. De preferência a coxa.
- Você entendeu o que eu disse?
- Claro Sofia. Apenas não vou comer uma planta.
- Comer um filé, é o mesmo que comer um cadáver.
- Nada como um defunto mal passado…
- Oh! Como você é insensível!
- Só estou faminto. Que tal comermos um frango? A gente pode comer os filhos dele também.
- Pare com isso, Julio! Perdi a fome. Vá almoçar só.
Foi um almoço mórbido. Apenas eu e um defunto na mesa. Até que ele era uma boa companhia. Se todo morto fosse como o meu “camarada”, eu almoçaria em um cemitério.

Mais uma noite em claro...


Hoje vencerei a insônia, apesar de ter acordado uma hora da tarde. Hoje é domingo, e como de costume fico sonolento o dia todo. Procuro acelerar o tempo em frente ao computador, e quando me dou por conta já está quase anoitecendo, e a ansiedade vem junto com a escuridão. Mais algumas horas se passam, preparo meu jantar às 23 horas, planejo dormir quando der meia noite, pelo menos.
Deito-me, e como num passe de mágica toda aquela sonolência vai embora. Já se passam de meia noite, e a insônia parece me vencer mais uma vez. Ligo a tv a procura de algum filme legal. Esses filmes sempre me salvam do tédio da madrugada, como na noite passada em que tive a felicidade de ver Highlander mais uma vez. Bom, hoje parece não ser meu dia de sorte, a emissora está fora do ar, isso aumenta ainda mais a minha ansiedade. Apago todas as luzes da casa, a escuridão toma conta de minha vista.
Agora só o som do rádio é perceptível aos meus sentidos. Tento me concentrar no que o cantor tem a me dizer, mas minha mente parece não está ouvindo nada daquilo, está ocupada com preocupações medíocres que cercam minha vida. É nesse momento que penso em escrever algo sobre minha noite, mas o meu corpo parece não me obedecer mais, e continuo ali mesmo como um doente a espera de um milagre.
Esforço-me mais ainda para entender as palavras que chegam até meus ouvidos. Ouço alguma coisa como “aprendi a dar mais valor ao meu dia, nessas noites de desespero”, aquelas palavras fazem todo o sentido naquele momento. Acaba o cd, e o silêncio toma conta de tudo novamente. Agora aquela sonolência começa a reaparecer. Já está próximo às 5 horas da madrugada. ” Perdi de novo” penso comigo mesmo.
Consigo ter umas quatro horas de sono. Me levanto já com a luz do sol tomando conta do meu quarto, e penso se não seria melhor dormir eternamente em uma cova quente e confortável ao som de ossos humanos.
"Existe um abismo entre aqueles que conseguem dormir e os que não o conseguem. É uma das grandes divisões da raça humana"

Memories...

E ele acordou em plena madrugada assustado, mas com uma vontade imensa de não ter acordado daquele sonho, aquele sonho tão real, aquele sonho feito de lembranças, que ele reprimia durante o dia inteiro, pra não sofrer mais… É que ele trava uma batalha diária com seu [sub][consciente], mas o danado insistente em travar uma briga interminável com ele, tudo que ele “esquece” durante o dia,  a noite vem átona em sonhos reais, com seus verdadeiros desejos escondidos e mostrando sua velha vontade de reviver aquela velha felicidade, aquele aconchego, não que ele não seja feliz, mas era diferente, mágico… Mas o dia chega e, quando o pensamento chega,  ele tenta colocar uma música animada, ler um livro chato da faculdade… Mas volta e meia ele se distrai e começa a pensar... Às vezes até ria dele mesmo, de sua inquietude, de sua batalha contra o quê…? É meio complexo de se lutar contra algo que você não sabe o ponto fraco, que você não sabe a forma de derrotar… E ele prosseguiu com suas idiossincrasias diárias…

Apenas uma formiga


Em minha perna, vejo uma pequena formiga tentando subir. É clara a dificudade que ela tem em praticar esse ato.
A dificudade é bem maior quando se é pequenininho. Não apenas para essa formiga, ou um inseto. Para todos, para aqueles que desistem de seus sonhos. Que aceitam a vida que levam, mesmo sendo quase impossível vivê-la. Para todos os outros que desistem de algum objetivo por acreditarem que não irão  alcançar nunca. Para quem, antes mesmo do fim da guerra, entrega a batalha e se mata.
Ah, mas era apenas uma formiga. Com o homem  é diferente, ele pensa, ele raciocina. Ele não iria fazer algo sem objetivo, assim como era a subida da formiga.
As formigas são inúteis. Não pensam e, nem mesmo, teriam um motivo para está subindo na minha perna. Elas não são significantes. Elas não desenvolvem novas vacinas, não criam naves espaciais, não exploram o espaço, não criam armas, não fazem guerras, não arriscam a vida do Planeta. São simples formigas.
Mas será que que a evolução é, sempre, boa? O homem evoluiu, não foi mesmo? As formigas bem mais espertas, não destroem, arriscam suas vidas com objetivos bem mais plausíveis.
São apenas formigas, eu matei ela (não tenho certeza disso). Não tem valor, tem? Não pensei duas vezes em acertar a mão nela e derrubar a mesma de minha perna. Quem pensa duas vezes antes de matar uma formiga? Não vão ao céu, muito menos ao inferno. O homem pensa, raciocina. Encontrou o céu e o inferno. Já as formigas, não.

Sobre...

O que irá agradar?
Que eu escreva sobre a morte?
Ou sobre a vida?
Sobre política?
Ou sobre futebol?
Sobre doenças epidêmicas?
Ou sobre a medicina?
Sobre grandes desabamentos?
Ou sobre as melhores praias?
Sobre guerra de tomates?
Ou sobre a fome na África?
Sobre a paz que Deus nos pediu?
Ou sobre as guerras santas?
Sobre o amor?
Ou sobre o ódio?
Sobre as mais belas cidades?
Ou sobre as favelas?
Sobre o mais complexo?
Ou sobre o mais simples?
Sobre a ciência?
Ou sobre a religião?
Ou talvez uma folha em branco seria a resposta para todas essas perguntas. Um tempo para que possa refletir. O silêncio… Silêncio.

Páginas em Branco

Ligo a TV.
Sorvo os canais.
Na estante os livros vomitam suas letras como uma cachoeira.
Pego um.
Na capa não tem nada escrito.
Suas páginas estão em branco.
Aliás, nem só elas…
Enquanto isso,
A poltrona da sala devora-me educadamente.

A Corda

O primeiro tempo do jogo acaba. Corro pra cozinha. Pego mais duas cervejas. Volto pra sala e me jogo no sofá.
- Julio! – alguém me chama, do lado de fora da minha casa.
Levanto-me. Já tenho idéia de quem seja.
- Sou eu, o Rafael.
Era exatamente quem eu suspeitava. Lembro-me que Rafael está me devendo um dinheiro, mas não sei quanto. Tinha emprestado mais de duzentos reais, só lembro disso. Fazia um bom tempo.
- Oi, Rafael. Entre.
Quando ele chega mais perto, noto que o seu pescoço está todo marcado. São marcas de corda, como se alguém (ou ele mesmo) tivesse tentado o enforcar. Foi a primeira vez que vi tal coisa.
- O que te aconteceu? – pergunto.
- O que? Ah, sim. As marcas.
- Isso mesmo. Não é o que estou pensando, certo?
- E eu sei lá o que você está pensando Julio! Olha só, vim aqui devolver aquele dinheiro. Pegue.
Ele me entrega algumas notas de cinqüenta. Ponho na carteira sem contá-las.
- E então, vai me contar o que houve com o seu pescoço?
- Tudo bem, mas não comente nada com ninguém, certo?
- Certo.
- A Andréa tentou me enforcar.
Penso se não é uma brincadeira dele. Mas fazer aquilo consigo mesmo não é do feitio de Rafael. Andréa é uma mulher muito grande. Deve pesar uns cem quilos. E Rafael é um homem pequeno. Ela podia ter feito isso com facilidade.
- Nossa! Por que ela fez isso contigo?
- Cheguei bêbado em casa anteontem. Sabe como é, eu fico um pouco irritado quando “tomo umas”, meu patrão tinha gritado comigo. Disse-a que ela andava muito folgada pro “meu gosto”. Chamei-a de umas coisas. E quando eu vi, ela meu deu um soco no rosto. Cai no chão e ameacei-a de morte. Levantei-me e dei uma tapa no rosto dela.
- Nossa. E ela?
- Ficou toda vermelha. Foi na cozinha. Continuei praguejando. Ela voltou com uma corda e começou a me enforcar. Me pegou desprevenido. Tentei me soltar, mas não dava: a mulher é muito forte!
- E então ela te soltou? Certo?
- Quem dera ela fosse mais fácil. Tive que pedir perdão, disse que a amava. Que não sabia o que tava fazendo. Só não chorei.
- Nossa. Que noite, hein?
- É. Tenho que ir. Não quero mais que ela me bata. Até outro dia, Julio.
- Até Rafael.
Ele vai embora. Sai apressado, nervoso. “Mas que homem mole” penso, “no dia em que minha mulher fizer isso comigo, ponho ela pra fora de casa. Tinha que ser com o Rafael. Sempre o “franguinho” de sempre. Aposto que chorou ontem. Nenhuma mulher bateu em mim! As que tentaram se arrependeram. Dei-lhes uma tapa de um lado do rosto, e outra no lado oposto para a cabeça não ficar torta! Se um dia a Nicole me desobedecer , eu dou-lhe uns bons tapas!”
Quando a partida recomeça, Nicole, minha quase esposa, chega em casa. Carrega uma sacola plástica. Ela vai direto para a cozinha. “Provavelmente vai fazer a janta” penso, “tenho que ir dizer o que quero”. Noto que minhas cervejas acabaram.
- Nicole, me traga mais uma cerveja – falo com autoridade –. O que você comprou?
- Uma corda – ela responde.

Discussão de Relacionamento

- Acho que você vai morrer pelo fígado…
- E você vai morrer por causa da boca.
- O que você está insinuando?
- Que você é um saco!
- Sabe por que eu te chamei aqui?
- Pelo mesmo motivo que eu to te aturando.
- Como você reclama!
- Como você é chata!
- Por que você não me trata bem? Não me faz uma poesia?
- Poesia não é pro seu bico.
- Nem flores me trouxe, seu sacana.
- Que diferença vai fazer?
- Custa me agradar?
- Custa calar a boca?
- Seu filho da puta!
- Por que você não usa sua boca pra fazer outra coisa?
Faz-se um silêncio quase absoluto. Quebrado apenas pelo barulho dos beijos.

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