sexta-feira, 30 de abril de 2010

O Feijão


Um homem tinha verdadeira paixão por feijão, mas ele lhe provocava  muitos gases, criando situações embaraçosas.

Um dia ele conheceu uma garota e se apaixonou. Mas pensou:
"Ela nunca vai se casar comigo se eu continuar desse jeito.."
Então fez um sacrifí­cio enorme e deixou de comer feijão.

Pouco depois os dois se casaram.
Passados alguns meses, quando ele voltava para casa, seu carro quebrou. Ele telefonou para a esposa e avisou que ia chegar mais tarde, pois voltaria a pé.

No caminho de volta para casa, passou por um restaurante e o aroma
maravilhoso do feijão lhe atingiu em cheio. Como ainda estava distante de casa, pensou que qualquer efeito
negativo passaria antes de chegar. Então entrou e comeu três pratos fundos de feijão.

Durante todo o caminho, foi para casa peidando, feliz da vida.
E quando chegou já se sentia bem melhor.

A esposa o encontrou na porta e parecia bastante excitada.. Ela disse:
"Querido, o jantar hoje é uma surpresa." Então ela lhe colocou uma venda nos olhos e o levou até a mesa, fazendo-o sentar-se na cabeceira.

Nesse momento, aflito, ele pressentiu que havia um novo peido a caminho.
Quando a esposa estava prestes a lhe remover a venda, o telefone tocou ela foi atender, mas antes o fez prometer que não tiraria a venda enquanto não voltasse.

Ele, claro, aproveitou a oportunidade.
E, assim que ficou sozinho, jogando seu peso para apenas uma perna, soltou um senhor peido.

Não foi apenas alto, mas também longo e picotado.
Parecia um ovo fritando.
Com dificuldade para respirar, devido a venda apertada, ele tateou na mesa procurando um guardanapo e começou a abanar o ar em volta de si, para espantar o cheiro.
Mas, logo em seguida, teve vontade de soltar outro. Levantou a perna ... e RRRRRRRRRRRROOOOOOOOOOOOUUUUUUUUUUMMMMMMM!!...

Esse, então, soou como um motor a diesel pegando e cheirou ainda pior!...
Esperando que o odor se dissipasse, ele voltou a sacudir os braços e o guardanapo, frenéticamente, numa animada e ridí­cula oreografia.

E quando pensou que tudo voltaria ao normal, lá veio a vontade outra vez.
Como ouvia a mulher, lá dentro, continuando a falar no telefone, não teve dúvidas: jogou o peso sobre a outra perna e mandou ver.
Desta vez merecia medalha de ouro na categoria.

Enxofre puro.

As janelas vibraram, a louça na mesa sacudiu, e em dez segundos as
flores no vaso sobre a mesa estavam mortas.

Ouvido atento a conversa da mulher no telefone, e mantendo a promessa de nãoo tirar a venda, continuou peidando e abanando os braços por  mais uns três minutos.
Quando ouviu a mulher se despedir no telefone, já estava totalmente aliviado.

Colocou o guardanapo suavemente no colo, cruzou as mãos sobre ele e  chegou a sorrir vitorioso, estampando no rosto a inocencia de um anjo.

Então a esposa voltou a sala, pedindo desculpas por ter demorado tanto ao telefone, e lhe perguntou se ele havia tirado a venda e olhado a  mesa de jantar.
Quando teve a certeza de que isso não havia acontecido, ela própria  lhe removeu a venda e gritou:
SURPRESAAAA!!!!!!
E ele, finalmente, deu de cara com os doze convidados sentados a mesa para comemorar seu aniversário de casamento!!!

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Com a palavra, Carlinhos!

 
"O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar."

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 27 de abril de 2010

O Piromaníaco

Esta me foi contada, e a pessoa jura por Deus, apesar de se confessar atéia, que aconteceu mesmo!

O fato se deu lá pelos meados da década de setenta numa cidade do leste catarinense. As ruas ainda não conheciam o asfalto, quando muito o liso paralelepípedo que em dias de chuva fazia a festa dos ortopedistas, e de violência só se sabia daquelas que se perpetravam na calma do lar, do marido bêbado contra a esposa subserviente. A cidade se orgulhava de ostentar o título de "Vale Europeu", e bradava aos quatro cantos que saíra publicada nas páginas das "Seleções", aquela revistinha que moldava nossos padrões à luz do refugo yankee. Matéria paga, certamente, mas suficiente para fazer morrer de insana inveja os municípios vizinhos.

Pois bem, foi neste cenário quase que bucólico, de pudicícia até, cujas cozinhas recendiam a pão caseiro assado no forno à lenha, que o aqui narrado aconteceu.

Os dois jovens eram primos de sangue e, desocupados como eram, viviam a azucrinar a vida dos pacatos moradores com suas tiradas surreais (ou seriam criminosas?). Era muito comum vê-los caminhando nas tardes de domingo pelas praças desertas com aquele sorriso sádico de quem andou a aprontar alguma, ou confabulando nas esquinas com seus bichinhos de estimação amarrados à corrente (a cobra Jurema, um galho arrancado de um pobre Ipê, e Rodolfo, o sapo que morrera afogado, segundo a versão do criador). Durante a semana eram vistos separados, falando sozinhos, vestindo shorts no inverno e pesados palas no verão. Enfim, era impossível não percebê-los, não ouvi-los e não se irritar com os únicos desajustados que o poder local permitia andar em liberdade. Percebam, amigos leitores, que isto conto de ter ouvido, e não de ter vivido, pois nem projetado ainda fora, e se me perguntam "é verdade?", respondo que não boto a mão no fogo por ninguém.

Mas para encurtar um pouco a história, vou chamar a atenção para o fato de que um deles morava no centro da cidade, ao lado de uma igreja evangélica, cujos cantos e preces nas manhãs de sábado atrapalhavam o seu santo sono. Particularmente, nada tenho contra os cantos e preces, mas ele tinha, e sua raiva aumentava a cada sábado. Cada vez que ele saía para a estrada e obrigatoriamente passava diante do humilde templo, lançava-lhe um olhar criminoso que prometia alguma coisa. Muitas vezes o olhar se transformava em gestos obscenos ou até mesmo em palavrões que aprendera com seu primo, mas não passavam disso, isto é, até aquele dia.

Incomodado com as vespas que lhe invadiam o quarto, o famigerado saiu a procura do ninho com o intuito de queimá-lo, e qual não é a sua surpresa quando o encontra sob o forro da igreja vizinha. Desnecessário dizer que um brilho estranho tomou conta dos seus olhos quando percebeu que o vespeiro lá estava sob os auspícios da Providência Divina, e que concretizavam-se as possibilidades de vingança contra o seu despertador sabatinal.

Muito calmamente foi até ao bambuzal que havia atrás da sua casa, e de lá trouxe um bambu (porque outra coisa não poderia ser) com quase dois metros de comprimento, que lhe serviria como tocha ou algo do gênero. Muito tranqüilamente, embebeu um pano em álcool e o amarrou a uma das extremidades do dito cujo. Não preciso repetir que seus olhos lançavam ao longe fagulhas de emoção. Com um fósforo, acendeu a tocha, e pôs-se a queimar o vespeiro, quase tendo um orgasmo ao imaginar o desespero dos insetos que tinham seus domínios invadidos pelas labaredas. Digo quase, porque o orgasmo mesmo viria no ato seguinte. A igreja possuía ventarolas nas janelas, e a fim de permitir a circulação de ar, as ventarolas permaneciam abertas. O famigerado, ao perceber as pesadas cortinas vermelhas por detrás das ventarolas, direcionou para lá o bambu, ateando fogo às cortinas. Pronto, agora podia gozar!

Naturalmente a intenção do piromaníaco não era atear fogo à igreja, afinal, não era tão mau assim, e quando ele viu que o fogo aumentava e que se alastrava por todas as cortinas que, diga-se de passagem, cobriam todas as paredes internas do templo, ele ficou realmente preocupado, e correu ao orelhão mais próximo para chamar os bombeiros. Nisto uma pequena multidão de desocupados já se reunia na rua para assistir ao espetáculo, e surgiam as primeiras explicações para o sinistro: "só pode ter sido um curto circuito!", dizia um; "não, eu vi, foi a vela que esqueceram acesa!", categoricamente afirmava uma senhora com "bobs" enrolados nos cabelos.

Alguns poucos minutos depois chegavam os caminhões vermelhos do Corpo de Bombeiros com as estridentes sirenes ligadas, fazendo o maior estardalhaço e acompanhados de uma multidão ainda maior de curiosos ávidos por tragédias. Tão logo chegam, os soldados virilmente saltam dos caminhões, quebram os vitrais com seus machados, invadem a casa santa com suas pesadas mangueiras, suas botas, seus extintores. Delírio na platéia, êxtase total para o nosso jovem, que a esta altura em nada perdia para um vândalo profissional. O êxtase era tanto, que quase chegou a sentir pena quando viu a desolação estampada no rosto do pastor Quando este chegou ao local.

Bem, a fim de chegar logo ao desfecho, porque já em muito estou inventando, contou-me a tal pessoa que no sábado que se sucedeu ao incêndio, o pastor reuniu seus fiéis naquele templo semidestruído para um culto de agradecimento, já que a casa do Senhor havia resistido à provação do incêndio graças ao providencial telefonema dado por nosso jovem cara-de-pau, "que fora enviado pela mão bondosa de Deus!", segundo as palavras do ministro. De tudo participava o cínico jovem, que em meio aos destroços dos móveis e à fuligem de fumaça que permanecera na parede, recebia os olhares de aprovação dos fiéis e as piscadelas de promessa das ninfetinhas, loucas para honrar ainda mais o nosso hipócrita herói.

O primo, que de tudo sabia, porque ao outro bem conhecia, limitou-se a morrer de inveja e, no seu íntimo, pensou em feito ainda maior. Mas aí já não falo nada, afinal, termina aqui o que me contaram, e se mais houver, que se procure nas páginas policiais dos jornais da cidade.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Carícia

O peito dói, como sempre. Talvez o frio nesta noite e o vento que vem do mar. A Lua beijando a água, beijo salgado. Estes clichês! Tão difícil evitá-los. Mas o peito dói, pulmões ou coração? Tão novo, coração? “Os poetas sofrem dos pulmões pois respiram muita vida, e são tão parcos seus peitos!” – frase preferida do seu personagem. Este personagem que lhe toma o corpo, a alma, que lhe rouba a personalidade. A quem cumprimentam? A ele ou ao personagem? De quem são estes olhos? Estas mãos? Estas pernas? De quem é este sexo e esta língua? Ah... E o vento, o vento do mar, do sul, suspiro final do inverno. Logo, a primavera, as flores, a cerveja... e a solidão! Pois se sente tão só sempre, inda mais quando há calor. Sabe que no inverno as carências são maiores, os abraços mais necessários, a poesia mais quente. Esperará novamente o outono e o inverno, esperará... Sempre esperando, e as coisas acontecendo. Esperar de espera mesmo, não de esperança. Esperança é conhecer o que se espera e ele desconhece absolutamente tudo. Ele ou seu personagem? Mas esta dor no peito, esta dor no peito que lhe dificulta a fala, e como é bonita esta estrada! O retorno à cidade, o Atlântico à direita e a Lua no céu. Alva como o rosto claro da Carícia que lhe rouba os pensamentos. Esta Carícia terna que possuiu algumas vezes sobre sua cama. Esta Carícia cujas marcas das unhas ainda carrega tatuadas nas costas. Ah, este jogo de se esconder e de se mostrar, hoje liga, amanhã visita, depois acaba. Imolado, conhece o destino que se repete, sempre. Imolado! O dia seguinte e aquele par de olhos que flertam com os seus. Tem medo, mas aceita. Sempre aceitou. E depois a dor no peito.

“Linda, a Lua, não?” – corta o silêncio a amiga que dirige.

“Linda!” – responde. Queria dizer que é triste também, mas há beleza na tristeza. Acha linda uma composição que lhe arranca a dor. A lágrima é a dor diluída. Ah Pessoa! É este o mesmo mar que olhaste, com o mesmo sal, muito do qual, poetizaste, são lágrimas de Portugal, e outro tanto lágrimas africanas, e americanas e...  Há sempre tantas lágrimas e são tão áridos tantos e tantos rostos que por aí vagam sem porquê. Mas deixa, deixa estar este marulho, e esta luz, e este vento. Deixa estar os pescadores que dormem para acordar no meio da madrugada e pescar. A rodovia acesa, sempre acesa, com suas faixas amarelas, suas casas de lâmpadas vermelhas e as putas e michês. Dia desses faz a proposta, a amiga libidinosa aceita: “Vamos entrar?” “Sim, vamos entrar, e vamos fumar, e vamos beber, e vamos transar. E vamos matar esta melancolia, estes olhos lassos, e depois vamos embora, e nos teremos de volta, e você dirigirá, e eu olharei para fora, para além, para dentro, e serei o mesmo (ou um outro?), serei sempre ridiculamente o mesmo.”

Mas agora, Carícia, de olhos claros medrosos. A boca pequena. A voz embargada. Tão ansiosa por ser mulher! Respira Carícia, dominatriz, e ele sabe, masoquista que é, entrega-se, suicida-se. E ela suspira a paixão que inventou para si, plagiando assim Cazuza e seu “amor de liquidificador”. Que coisa horrível o sentimento de canalhice. Carícia, tão clara, tão medrosa, tão canalha! E ele prevê, prevê tudo, espera até. Mas que fazer? Que fazer? E, no entanto, o frio e a dor, pulmões tão plenos e tão cheios de vida e este peito tão pequeno! Os poetas deveriam ter peitos mastodônticos, mas não os têm. No entanto, estão aí, raridades, mas estão por aí! Claro, não se trata aqui de apontar aqueles que tão somente desejam sê-lo. Não se escolhe ser poeta, apenas se é, foge-se até da sina. Sina? Os sinos que nunca ouviu. Sua igreja não tinha sinos, pequena que era. Mas torre tinha, ah tinha, para aninhar passarinhos. Tinha também projeto de sino de bronze a ser feito na metalúrgica da sua cidade, mas que nunca saiu do papel. Ficou a lembrança da torre agora que a igreja teve o terreno desapropriado pela prefeitura necessitada de alargar a estrada. Logo a igreja vira apenas o fantasma das fotografias, que vão desbotando, desbotando... Como aquela do casamento dos pais, em preto e branco, o pai de terno europeu, a mãe de noiva, clássica, vestido branco, sorriso enorme. Calor de rachar os cornos e estava lá o seu velho, então moço, suando sob o terno europeu. E a rosa nas mãos da mãe, da noiva, murcha de dar dó. Mas falava-se da sina, de se fugir da sina. Ah, pois, mas há a dor no peito e a amiga ao volante. Quando começara aquela amizade? Como unha e carne escreveria um escritor medíocre, tanto quanto este que agora escreve, amizade de unha e carne, está aí, não tiro a palavra e a mediocridade. Outrora tão bonita, agora, apenas “experiente”. Pena terem se conhecido tão tarde. Como unha e carne. Não confessa, mas também já a desejou, como fêmea, também já a desejou. Mas à Carícia, a esta, roubou apenas um beijo, coisa de filme antigo, de mulher pré-maio de 68, enfim, de mulher recatada que se masturbava sob os cobertores. Roubou o beijo e ela correu, melhor dizendo, andou depressa, fugiu para casa. E o taxista disfarçando o sorriso sob o bigode. Depois mandou mensagem eletrônica, de chegada imediata, nada de cartas, de correio. Seus pais se conheceram por carta, namoraram por carta, e o velho, decidido, um dia veio, abandonou seu luso chão e veio. Ficou. Mas dizíamos, mandou “e-mail” pedindo desculpas. Vejam só, pediu desculpas! E Carícia eletronicamente respondeu que ele não tinha do que se desculpar. “Ela gostou, e quer” – conclui, os dedos embargados de emoção não digitaram mais nada. Agora a Lua, o mar, o vento frio, a dor no peito.

“Ela se vai! Eu sei, e sei também que direi: ‘vai’. Não prendo, não posso prender. Coisa brega, mas a sentença é verdadeira, ‘quem ama liberta’, se prende, não ama. Pode ser desejo, pode ser paixão, mas é posse tão somente. Não é amor. Coisa ridícula o amor, Romeu e Julieta coisa e tal...”

“Ela vai, mas volta” – sentenciou a amiga, experiente, conhecedora da alma feminina.

Errou! A amiga errou, mas isso foi depois, conto mais tarde ou nem conto, vamos ver. Mas o fato é que ele sabia que a amiga estava errada. Carícia iria embora, ele sabia, como também sabia que não se jogaria aos seus pés, não cometeria atos de loucura, não cortaria os pulsos nem tampouco apelaria para a chantagem. Ao perceber o momento, o desejo de ir nos olhos verdes de Carícia, diria: “vai”. Não seria a primeira vez a fazê-lo, muito provavelmente não seria a última. Tem essa mania de colher melancolia, de cultivar jardins de dor. Mas não sejamos piegas. Afinal, talvez seja tão simplesmente covardia. O medo de disputar e sair derrotado. Mas enfim, agora já é tergiversação, voltemos, voltemos. Carícia, a Lua, o mar – ô saco! A noite tão bonita e a estrada sempre tão igual. Faróis e faixas, faróis e faixas. Quando chega em casa? Quer dormir, dormindo passa a dor, todas as dores, e a possui, novamente e sempre, em sonho, possui seu corpo, possui sua língua, suas coxas brancas, seus seios róseos e pequenos, que lhe cabem na boca, que lhe cabem na palma das mãos. E sua orelha, ô meu deus, a orelha! Tão bonita, tão vúlvea orelha! Boceta ou vagina? Aquela, tão vulgar; esta, tão asséptica. Um slide: o apartamento da amiga, desta que agora dirige, o quarto, a pequena cama, a montanha de caixas de papelão recobrindo as paredes, e Carícia sobre os cobertores, a entrega, o “posso?”, o “pode!”, e os botões que abandonam suas casas, a lingerie preta, a calma escondendo a ansiedade e a respiração tensa. Fazia frio naquele mês de julho. Ô frio úmido desta cidade! Tão cansado agora, tão cansado... E a dúvida ao chegar em casa, olhar o telefone, deveria ligar? Talvez ligue ela, afinal, tem a voz tão bonita, ele, e ela ligaria para massagear os ouvidos com sua voz de veludo, de volúpia, as coisas que sussurra aos seus ouvidos, o sorriso do outro lado da linha, o suspiro. “Vou até aí! Posso?” – acaba dizendo. “Pode!” – ah, claro que pode, é tudo o que deseja, tê-la junto de si, morder-lhe os lábios, sentir-lhe as mãos, as pernas enroscadas em seu corpo, estar nela, dentro dela, sobre ela, abaixo dela. Tudo sempre possível, tudo sempre permissível. Aprendizagem. E depois, sabe, ele dirá: “vai”. E ela irá, como chega, de súbito, na madrugada, no meio da tarde. E não voltará mais, não voltará. Como tantas não mais voltaram, cicatrizes profundas, memória de carne.

Os olhos tão distantes, o mar se escondeu na última curva, o rumo do vale...

domingo, 25 de abril de 2010

O Autor

Ouvir o som da música, desta sinfonia de um Mozart mítico, é conhecer o infinito! A sinfonia repetindo-se incessantemente, desnudando-se para o laser que a lê; e o corpo em repouso, ora oprimido, ora liberto na "insustentável leveza do ser", tem seu íntimo embalado nas notas escritas pela perícia de incógnitos músicos que inscrevem seus textos no ar. A música, desalentado espírito repousado no sofá, é ópio para a ausência dos lábios que me despertaram (e me deixaram também!), para a lembrança do corpo quente que ainda sinto em mim, tocando-me, cingindo-me. A música é este corpo que procuro: e me deixo enlaçar. Um manto, um oceano, é "Nut" que me abraça, mortal abraço do qual não me desvencilho mais, e me quedo, estático, aos olhos dos que sempre me viram, para nascer, novo - apesar de mesmo - , incorpóreo, em essência.

XX

Na tela os traços de um olhar refletido na paisagem. Mãos leves manejam habilmente o duro pincel. É uma deusa concedendo a vida. Imóvel, observa a cena que pintou, está nela, é a deusa criadora, o "verbo", templos e oferendas lhe serão dedicados, preces lhe serão rogadas!

Trêmula de emoção (erótica é a visão que se lhe apresenta das criaturas que procriam sofregamente diante dos seus olhos), despe-se vagarosamente. A mão que ainda a pouco empunhava o pincel, agora desliza sobre a sua pele macia: contorna os seios, o ventre e se perde no interior das coxas. A excitação a faz ir ao encontro da tela recém pintada, do mundo recém criado, e se encosta nela. A tinta fresca imprime-se ao seu corpo, e é neste solo palpitante e quente que copulam agora as criaturas. As mãos freneticamente continuam a se mover pelo corpo, misturando as tintas, preenchendo de cor cada canto seu, e as criaturas a penetram, invadem seu ventre, o ventre da deusa que veneram, e ali arquitetam os planos de uma nova civilização. A deusa faz de si sua própria obra, a mais perfeita, a mais sincera, e refeita do êxtase criador, tendo as coxas umedecidas pelo gozo, mistura às tintas que a recobrem o líquido do seu sexo. Descansada, expõe-se na janela do seu apartamento, segundo andar da principal avenida da cidade, e permite aos transeuntes contemplar o auge da sua criação: ela mesma mergulhada em sua obra e sua obra mergulhada em si, fundidas em um mesmo ser, da cópula consigo mesmo.

XX

A música é todo meu mundo, não mais a sinfonia de Mozart, não mais qualquer música já composta. O som que envolve minha essência não é passível de composição, não há notas que possam registrá-la em pentagramas, é a música em si mesma, assim como eu, em mim mesmo, indescritível, sem formas. A música decompõe-se numa explosão de cores, da qual faço parte, e emana este calor que é único, impossível de ser medido pelos termômetros que inventamos. Apenas o turbilhão onde me sinto pleno, e percebo que não sou o único, há muitos aqui, estão em mim e estou neles, e somos apenas vontades, vontades de sermos únicos, e somos, não únicos, mas Único, uma só vontade criadora.




XX

Estou neste ventre, fértil solo materno, no interior da caverna, e vejo as sombras projetadas na parede úmida, tal qual descrevera Platão. Eu mesmo não deixo de ser uma delas, é assim que me vêem e é assim que me vejo, a projeção de um outro eu, desconhecido eu, que me rege.

Apesar de sombra, ouço incessantemente a música, que brota do ventre. A deusa dança novamente, sempre mais excitada, e se esfrega às telas que pinta, inscrevendo à paisagem os traços do seu sêmen. E a fantasia se move, concebe-se, procura a compreensão de si.

Da rua, olhos desocupados a contemplam, nua, manchada de tinta, mergulhada em seu êxtase. Homens sobem à sacada e se penduram na janela, enquanto esposas mal amadas agarram-se aos telefones públicos para denunciar o que consideram "uma vergonha". "É espaço privado, apartamento particular, segundo andar, não há lei que a impeça de rolar nua sobre seus quadros" - responde o paciente delegado. Matéria de capa dos jornais, chamada na televisão, todos param para contemplar o inusitado espetáculo de uma pintora louca que inscreve aos seus quadros as marcas do seu corpo e o cheiro do seu gozo. Valorizados quadros, objetos de fantasia sexual, homens e mulheres dedicam-se a lambê-los em seus momentos de intimidade, e a denunciá-los como lixo imoral perante a sociedade. Mas a Deusa não se importa; mais, não compreende as críticas das quais é alvo, não consegue se lembrar de como suas pinturas foram manchadas, transformadas em obras abstratas. Ela própria só se enxerga como sombra, difusa imagem no espelho, que some lentamente. Pensa em se desesperar, "para onde vou?", "onde se escondeu a imagem que estava no espelho?" Permanece o corpo perante o espelho, nu, belo, gélido! A Deusa não está mais lá, convocada no mundo que criou, misturou-se as tintas mescladas em uma só cor, na tela que se inscreve nas paredes do seu útero, gélido útero em um corpo morto, ainda que divino, estirado no chão. Penetrou em si mesma, encontrou-se no seu interior, abandonou as sombras para ingressar na luz. É isto, transformou-se em luz, na luz que brota por entre as coxas de uma mulher lindíssima que foi encontrada morta perante um espelho. Acharam-na os homens que se penduravam na sacada para observá-la, como de costume, rolar eroticamente sobre seus quadros. Mas não rolava, não dançava, não pintava, apenas se punha deitada, e por entre as coxas uma luz, indefinida luz, perfumada luz. Não ousavam tocá-la, não ousavam removê-la, estava morta, era visível, não se movia, não respirava, mas no entanto era fonte de uma luz eterna, que não oscilava, não enfraquecia, sempre a mesma e constante. Sequer os legistas ousavam conspurcar tamanho mistério com seus instrumentos cirúrgicos, com suas patéticas luvas de látex, quedavam-se em observar o corpo, atraídos pela luz, por horas seguidas, como em transe hipnótico, sem encontrar respostas, sem encontrar perguntas, apenas diziam: "é uma luz"; e se punham a venerá-la...

XX.

Embalado por Mozart, procurando compreender-me, permito ao meu olhar vagar sobre a tela anônima. A profusão de cores que se projetam do quadro desnorteia-me, deixa-me tonto, mas ainda assim acompanho as formas de uma mulher lançada ao chão de um pequeno prédio. A janela está aberta, o corpo está nu, sujo de tinta, e por entre as coxas um enorme clarão. Há homens pendurados na sacada do prédio, olhos arregalados, expressão de espanto, e um médico reclina-se sobre o corpo estático, sem no entanto tocá-lo. Quem seria o pintor?

Levanto-me e chego mais perto da tela. A tinta sobre o ventre, sobre os alvos seios, forma paisagens, vales, prados, cidades. Há movimento, quase imperceptível, no abdômen, e uma pequena brisa move levemente os longos cabelos avermelhados. Sinto medo, quero afastar-me da pintura, mas não consigo. Mozart a minha volta, cada vez maior, mais alto, mais claro, e a pintura por todos os lados, para onde viro está a mulher, enigmática, corpórea, e a luz sempre presente por entre as coxas.

Olho para o alto, dois olhos enormes e arregalados obscurecem o céu, abaixo o solo claro e macio, epiderme, por onde experimento alguns passos. Tomo o caminho contrário aos dois montes distantes que vislumbro no horizonte, e rumo seguindo os sulcos de uma gota de tinta que escorreu lentamente. A claridade me obriga tatear com os olhos fechados. Caio! Rastejo no solo macio, o desejo de rastejar infinitamente, e um indiscritível prazer toma conta de mim. E Mozart constante, mais e mais alto, convulsiona-me, impele-me adiante, onde encontro o vale profundo, fonte de toda luz. O cheiro inconfundível do sexo penetra minhas narinas, e caminho pisando em vúlveo terreno. Estou mergulhado na modelo do quadro.

XX

Mozart cessou. Paira despótico o silêncio. O escritor abandona a caneta, arrasta a cadeira, levanta-se! Caminha em direção ao aparelho de som, retira o disco já ouvido, escolhe outro, MPB, introduz a nova escolha no leitor ótico e se volta para a mesa de trabalho. Um instante de dúvida o mantém parado, o olhar fixo sobre os papéis que se espalham sobre o tampo da mesa: retorna, não retorna. A caneta espera em repouso. Acordado pela voz de Toquinho – Aquarela – volta a movimentar-se. Senta-se cansado, quiçá desiludido. Seus olhos percorrem o manuscrito e, descontente, usa das mãos para transformá-los em papéis amassados, lançados ao lixo.

É Toquinho que o invade agora, e angustiado lança os olhos para o cesto de lixo. Está lá, amassada e transfigurada, a mulher que emana a luz, a sua luz. Tenta esquecer, escrever outra coisa, mas não consegue. Os papéis no cesto palpitam, têm cheiro, clamam por ele. A mulher não dorme, não morre! É tão somente luz, a luz que agora envolve o recinto, que o abraça no enlaço tépido de um sorriso carinhoso. Persegue a luz, desiste de resistir, e se entrega a perseguir a luz. É seu destino, está escrito, assim o quis o autor, e por isso ninguém consegue despertá-lo pela manhã. Debruçado sobre a mesa, seu corpo está frio!

sábado, 24 de abril de 2010

A Voz Sem Som

I

Em meio à névoa, uma imagem, impressionista, dissolúvel nos gases que a envolvem; uma imagem de mulher. Dos delicados contornos percebo apenas as tênues formas, que se movem, aproximam-se, afastam-se, iludem meu olhar. Talvez uma divindade, talvez um delírio, mas certamente um corpo sem face.

Mergulhado no líquido viscoso da transpiração, desperto na polução noturna. A imagem some. Um sonho! Levanto-me: o banho, a água morna, a toalha felpuda, e sequer uma lembrança — um corpo sem rosto!

II

Convulsões impelem meu corpo contra a cama, e o corpo da mulher pulsa estranhamente no infinito do espaço do inconsciente. Mas o brilho muito intenso faz com que suma a névoa, o pulsar, a imagem. Meu corpo jaz apenas estático sobre o colchão.

O caótico quadro embrulhado em gases e angústias é agora substituído por uma arcádia. Vejo um enorme gramado plano, verde, e um profundo céu azul, sem nuvens, e só! Ao longe percebo um homem que caminha, lento, sonambúlico, sobre o verde prado. Vislumbro-o de costas, mas reconheço-me em sua silhueta. Caminha em direção ao ponto em que se encontram o solo e o céu, e onde desaparece toda e qualquer possibilidade de referência. É como se procurasse o suicídio no imenso abismo da paz.

Minha intenção é gritar-lhe, informá-lo da minha vontade de ficar, de sentir ainda por muitos anos a umidade da grama verde que se estende sob seus (meus) pés, mas não consigo. Tudo o que possuo é o terceiro olho que observa o espaço da subjetividade mais profunda, o espaço totalmente desprovido das noções de tempo, o espaço desprovido da própria noção de espaço. Tudo o que vislumbro é possível reduzir à noção de infinitude. Estou um mero espectador de mim mesmo inatingível.

E continua caminhando, a grama gira sob seus (meus) pés e parece não terminar mais. A cada passo uma cor transpassa o céu azul, e a cada cor que passa no céu, levanta a cabeça. Mas não pára, seu (meu) destino é o ponto no infinito, na ausência de matéria, forma e cor. Seu (meu) destino é o abismo do vazio, onde certamente encontrará o tombo eterno. Mas não pára, e não o alcança!

Do vazio sobe agora a voz sem som. É estranho, naturalmente, mas ele (eu) pode escutá-la. Uma voz sem som que fala à mente do eu que vaga no espaço da minha própria mente. Uma voz, quase um apelo, uma presença naquele imenso vazio; e a segue, sim, segue-a!

Posso perceber agora que o abismo não existe, que da grama caminha sobre o nada. Não caiu, não cai, apenas vai! E segue a voz sem som. O que eu via, um corpo, já não mais existe, faz parte da imatéria, e já não vejo mais, apenas sinto, sinto o eu que vai, não mais caminha, e a voz sem som.

Abro os olhos, calmo. Observo o teto, branco, e o dia lá fora amanhece. Vago, leve, ponho-me de pé e rumo para o banho: água, sabonete e a toalha felpuda. De nada me lembro, sinto apenas um corpo vazio, a falta de algo que nunca tive.

III

Agora nada vejo, nada escuto, pareço estar no interior de uma hermética bolha de sabão que flutua sobre o nada. O ser (eu) que via, que acompanhava, alheio a minha vontade, vivo! Pertenço agora a sua natureza: sou eu dentro de mim mesmo. Difícil explicar, mas faço agora parte daquilo que eu via, e sou eu em toda a minha essência: sem corpo, sem voz, sem vontade, apenas eu. A essência mais profunda: ser!

E novamente a voz sem som me chama, nada penso, apenas sinto. E me desloco no espaço inexistente e sem sentido. A voz ... a voz... a voz... Sinto-a se aproximando, mas pareço mudar de direção, alheiamente a minha vontade — não tenho vontades! Mas a voz sem som continua me chamando, insistentemente clama por minha presença. No plano da total inexistência, porém da profunda essência, tudo o que percebo sou eu e a voz.

Levanto, é tarde, tomo um banho, água quente, toalha felpuda. Fecho os olhos; quando os abro ela está lá, olha para mim, e some.

IV

A voz sem som, a voz sem nome, sem palavras. Tão somente uma voz. E eu em minha maior profundidade modifico o meu rumo e vou ao encontro do que me chama. E encontro-a.

Acordo delirando, febril, o guarda-roupa parece se inclinar sobre mim. É manhã e o despertador toca incessantemente. Desligo-o e me deparo com o rosto do vizinho na janela. Diz-me que estava preocupado, acordara durante a madrugada com o som dos meus gritos, e agora, com o barulho irritante do despertador, pensou que eu estivesse morto e veio verificar.

Tranqüilizo-o e me convenço da necessidade de colocar cortinas nas janelas.

Dispo-me, banho, água morna, sabonete, toalha felpuda... Algo não está completo, e sou eu. Falta-me alguma coisa, mas não consigo descobrir o que é. Talvez seja... o telefone! O telefone está tocando, preciso atender.

- Sim?

... um engano, mas juro que conheço aquele suspiro!



V

Uma explosão! - foi tudo o que vi e senti. Levanto agora a minha cabeça, meu corpo está de volta, e distingo no alto as formas de uma mulher (ela novamente), mas não encontro seu rosto. O rosto meu Deus! E no momento em que clamo por sua face, esvai-se num suspiro.

... no banco do táxi, desperto. O motorista me olha desconfiado. Conta-me que estive sonhando. Enquanto fala, sinto duas mãos me acariciando a nuca e o pescoço. Viro-me e encontro apenas um banco vazio. Começo a transpirar...

... o corpo me envolve em sua essência, começo a dissipar-me. Sussurros sem som me comunicam da junção dos espíritos. É um corpo de mulher, é um espírito de mulher, mas sem rosto...

... no hospital, a roupa branca me veste, o piso liso e limpo reflete minha fisionomia anêmica, e a enfermeira me observa assustada.

- O taxista te trouxe, estavas delirando, com febre.

- Obrigado!

- O doutor te consultou enquanto deliravas, estavas gritando por um rosto, mas disse que tudo o que tu tens é estafa. Disse que assim que quiseres podes ir para casa. Se houver a necessidade ele te dá um atestado e ficas de repouso por alguns dias.

VI

A névoa abaixa. Vejo agora um rosto e um corpo. Mas agora que ela se materializa, agora que distingo novamente as formas, não posso tocá-la, pois distancia-se com os braços estendidos na minha direção, puxada por uma força distante. Sua voz sem som é agora perfeitamente audível, posso compreender o que diz: jamais ... jamais ... jamais...

Acordo em casa, deitado no sofá, a campainha tocando. Levanto-me e rumo em direção à porta. Uma sensação estranha cruza meu corpo. Ainda sinto falta de algo, não sei o que é, mas sei que vou descobrir. E só abrir a porta... e a campainha continua tocando.

Ponho a minha mão na maçaneta fria de metal, giro-a, a porta se abre ela e está aqui: a proprietária do corpo sem rosto, da voz sem som!

- Eu sabia que ia te encontrar — diz e me abraça.

Sinto em seu peito o seu coração, que pulsa, está viva! Uma incontrolável vontade de chorar toma conta de mim. Toco seus ombros, levanto seu rosto, como é lindo! Suas mãos sobem aos meus lábios, toca-os com os dedos delicados e me proíbe de falar. Aproxima sua boca da minha, beija-me, e neste singelo ato me permite conhecer todo o seu ser, a voz dos meus sonhos.


VII

Acordo assustado. A cama molhada pelo suor de muitas noites de sono e sonhos. Está vazia! O teto, a luz que entra pelo vidro da janela sem cortina. Sinto que me falta algo, algo com o qual sonhei, mas não sei o que é, não me lembro daquilo que sonhei.

Acordo, abro os olhos mas não me mexo. Pareço estar em estado de êxtase. Todo o meu corpo leve. Lentamente me descubro, esfrego meus olhos, verifico as horas no relógio e me certifico que estou de volta, posso medir o tempo e o espaço e compreendo que preciso sair para trabalhar. O banho, a água que me massageia, a toalha felpuda, mas algo me falta, tenho certeza, mas não sei o que é.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Morreu de Unha!

- Morreu de quê?
- De unha, o coitado!
- Morreu de unha?
- Moço, é surdo, é? Já não falei que morreu de unha? Por que tanta insistência? Era parente do falecido?

Acostumara-se a ver as procissões fúnebres, vizinho que era do cemitério. Gostava até! Era seu passatempo preferido adivinhar a importância do falecido pela quantidade de pessoas que acompanhavam o féretro, mas dificilmente descia até as sepulturas. Olhava da janela do quarto mesmo. Se naquele dia descera, foi porque ficou intrigado com os turbantes e com o colorido das roupas que mesclavam tons de alaranjado, branco e azul. As mulheres de olhos profundos e os homens de rostos hirsutos. Não eram brasileiros.

- Desculpe, não quis incomodar. Só fiquei intrigado. Pessoa tão boa, não é mesmo, como foi morrer de unha? Não dá para entender!
- E na lua-de-mel! Tão feliz, o coitado! Meses e meses planejando a viagem com a noiva, o desejo de conhecer o Brasil, para morrer assim, de unha! Se tivesse ficado na Índia, pelo menos poderíamos elevar sua alma para o céu; aqui não, aqui fica sepultado na terra, comendo barro!
- E a esposa, como está?
- E como poderia estar?! Traumatizada, não poderia ser diferente! Sente-se culpada, pensou até em suicídio. Mas quem poderia imaginar que tal coisa pudesse acontecer? Um acidente!
- Acidente?
- Claro! Ou você acha que foi premeditado? Conheço-a e sei que amava seu parceiro. Se há algum culpado nesta história, este só pode ser o famigerado do Vatsyayana.
- Que era o amante, suponho.
- De onde você é, o cara? Já não te disse que ela o amava? O tal do Vatsyayana é o cara que escreveu o tal do Kama Sutra. Conhece, não conhece? O finado aí era hindu, e buscava encontrar a satisfação sexual sem se tornar escravo do prazer. Por isso vivia lendo o tal livrinho milenar, estudando as posições, aprendendo a arte das preliminares.
- Sei... sei...
- Por isso que gosto tanto do meu marido, sabe? A gente se conheceu lá em Nova Délhi, ele é brasileiro, mas morava lá. Voltamos para o Brasil depois que casamos, na Igreja Católica, e aí sabe como é, né, homem casto, certo, não fica lendo essas coisas de Kama Sutra. A gente deita e entrega a alma. Pelo menos estamos vivos. Não fico que nem a coitada aí, tão novinha e já viúva.
- Desculpe a minha insistência, senhora, mas ainda não atinei com a idéia do cidadão aí ter morrido de unha. Foi infecção, tétano contraído ao ser arranhado pela esposa nos desvarios do amor?

- Asfixia!

- Asfixia?

- É! Aprendeu com Vatsyayana que as mulheres adoram ser beijadas nos pés. E matéria aprendida é matéria aplicada. Na noite de núpcias, antes mesmo de desnudarem-se, depois de terem acendido incensos pelo quarto e de terem deixado o aposento em sutil penumbra, o infeliz, naquele momento transbordando de felicidade – ora, veja só como são as coisas - , deitou a noiva sobre a cama e ajoelhou-se a seus pés. Entre a sucessão de beijos e juras, tirou-lhe os sapatos e passou a massagear com os lábios seus dedos. Ela delirava, jamais havia tido seus pés tratados com tanto carinho. E de repente, aconteceu! Estava morto! Havia engolido a unha.

- Engolido a unha?

- É, unha postiça, coisa de mulher que quer ficar ainda mais bonita para o marido no leito de núpcias. Ela bem que percebeu o coitado guinchando, debatendo-se, mas inexperiente como era, achou que fossem as tais “convulsões de amor”. Só percebeu quando o pobre caiu durinho no chão, morto.

Na manhã seguinte estava lá, matéria de jornal, notícias populares: “hindu morre asfixiado por unha postiça na noite de núpcias”.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Manchetes que foram lidas ontem:

"Casal Nardoni é solto temporariamente"

"Político flagrado no mensalão é condenado"

"Trânsito em SP é o menor dos últimos 5 anos"

"Índice de acidentes nas estradas brasileiras chega a zero"

Eu sei... 1 de abril foi ontem...

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