quinta-feira, 4 de junho de 2015

Diário de um Canal

 

Não, meu querido, eu não vou falar pra você do canal que separa a ilha da Grã-Bretanha do norte da França, mais conhecido pelos franceses como La Manche, ou, pelos alemães, como Der Ärmelkanal, ou English Channel pelos ingleses, ou ainda Canal da Mancha, no bom e velho português. Isso não vai ser uma aula de história, e eu não sou o Laurentino Gomes. O que me traz aqui é algo mais interessante. Eu vou falar de uma coisa factível, muito mais comum, e muito mais presente. Se fosse você, não tiraria os olhos daqui, mesmo o assunto não sendo, digamos, palatável. Vai que isso acontece com você, hein? Mas vou de diário, fique tranquilo. Como um bom uísque, a coisa desce macio. Falemos sobre dor de dente.

Domingo, 04:23 a.m. Acordo com o dente latejando. Parece que tem alguém, em intervalos regulares, enfiando uma faca nele. Não consigo dormir. Vou até a cozinha e mando 40 gotas de Lisador pra dentro. Fico pensando que merda é essa. 10:30 a.m. Sem dormir desde então, sou recebido com genuína alegria pelo dentista de plantão do Plano, tirado de sua pescaria, missa, feira, cama, fórmula 1, qualquer coisa que certamente é bem melhor do que um consultório em pleno domingão, por um coitado com dor de dente. “Aparentemente, não é canal, não tem cárie. É uma restauração grande e profunda. Vou fazer um curativo e receitar um remédio. Acho que a dor passa. Se ela voltar, você deve procurar um especialista pra abrir o canal”. 07:35 p.m. A dor volta, mansamente.

Segunda, 06:30 a.m. Acordo com uma dor mansa. 01:32 p.m. Controlada à base de remédio. 07:21 p.m. Que começa a querer sair do controle. 10:35 p.m. Que não resiste a 40 gotas de Lisador. A dor não. Eu.

Terça, 05:20 a.m. Dor completamente fora de controle. Vou trabalhar pensando no que fazer, e com a certeza de que é canal. 08:53 a.m. Agendo para o dia seguinte a consulta com a especialista do Plano. Até lá, remédio. 09:24 a.m. Um amigo me encontra com as mãos nas bochechas, e me indica um tio seu, especialista, e dos bons. 02:35 p.m. Retornando do dentista, tio do amigo meu, com o canal aberto, com o dente aberto, com a cara anestesiada, e sem dor. 06:01 p.m. Já sem o efeito da anestesia, não sinto dor. Santo tio do amigo meu. 10:35 p.m. Vou dormir como um anjo, sem dor e sem remédio.

Quarta, 06:31 a.m. Acordo feliz e sem dor. Tomo café como um rei. 10:30 a.m. A especialista do Plano me atende, mexe no dente, sem anestesia, drena, limpa, enfia remédio e fecha. Marca retorno para o procedimento em 28 dias. 01:19 p.m. Sinto uma dorzinha, acho que em razão de ela ter mexido, claro. 07:26 p.m. A dor aumenta, mais ainda sob controle. 11:57 p.m. Vou dormir com um pouco de dor, muito menor do que a do curíntia, he,he,he!

Quinta, 8:23 a.m. Dor insuportável. A dentista do Plano foi viajar, só volta na quarta. Pede pra eu ir à emergência e mandar abrir o dente. Pesquiso no google: é uma briga entre eles. Fechar ou não fechar? Os manuais mandam fechar, mas quem tem experiência na emergência sabe que fechando, o paciente volta dia seguinte com dor. Quer um conselho? Não deixe fechar, amigo, enquanto não tratar o canal. 10:30 a.m. A dentista, esposa de um grande amigo meu, me traz de novo pra vida. Deixa o dente aberto, com um algodãozinho. Sem dor. 03:47 p.m. Sacudo com essa lenga-lenga, ligo pro tio do meu amigo e agendo o procedimento para o dia seguinte, sem cobertura do Plano.

Sexta, 03:00 p.m. Tudo resolvido. Tratamento do canal em 53 minutos. Já não fazem mais canal como antigamente. Ainda bem.

domingo, 24 de maio de 2015

O Dia em quem o Jornalismo foi morto a Facadas

O jornal Extra matou o jornalismo a facadas com a capa que transformou o assassino do médico Jaime Gold em vítima de duas tragédias anteriores, como se as supostas faltas de família e escola fossem as verdadeiras responsáveis pelo crime e equivalessem a um assassinato.
EXTRA canalha
Para o Extra, a escola era a “outra barreira de proteção do menor” assassino, que, no entanto, “também desistiu dele”. O jornal, na prática, legitima moralmente o crime
 ao jornal Extra os casos de:
Suzane Von Richthofen, que estudou no Colégio Humboldt, cursou Direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e tinha pais comprovadamente esmerados em sua educação, até decidir matá-los a golpes de barra de ferro, em parceria com o namorado rejeitado por eles e o irmão do dito-cujo.
Guilherme de Pádua, então ator da maior emissora de TV do país quando decidiu apunhalar até a morte a atriz Daniella Perez, seu par romântico na novela. Os pais do ex-ator que ganhou bolsa na PUC Minas após cumprir pouco menos de 7 anos de prisão “sofreram demais” com o crime, segundo ele próprio.
Em ambos os casos, como em milhares de outros, tratavam-se de assassinos…
- COM FAMÍLIA,
- COM ESCOLA,
…que, assim como o de Jaime Gold, fizeram uma escolha (i)moral pela qual têm de ser responsabilizados.
Apresento ainda:
- o caso da menina de 12 anos estuprada neste mesmo mês NA ESCOLA Estadual Leonor Quadros, no Jardim Miriam, Zona Sul de São Paulo, por TRÊS ALUNOS DA MESMA ESCOLA.
O Extra também vai lamentar que ela “desista” deles?
Sem falar nos inúmeros casos de pobres que venceram na vida, apesar de todas as dificuldades, como o campeão da matemática Ricardo Oliveira, filho de lavradores do interior do Ceará e portador de uma doença rara; ou Thompson Vitor Marinho, filho de pasteleiro e catadora, que passou em 1º lugar em escola federal estudando com livros que a mãe trazia do lixão.
Lá mesmo, onde deveria estar – mas felizmente não estava – essa edição do Extra.

Cuba-Livre (?)

 

     Perguntei como ele estava depois da bebedeira noite passada. Era um amigo não muito acostumado ao álcool. Até me surpreendi quando ele aceitou tomar umas. Em resposta, disse-me que acordou de madrugada com dor de cabeça e azia, ao que indaguei se o mal não teria sido em razão dos espetinhos que ele devorou no fim da noite. É... Pode ser...

     Mas a conversa banal me arrastou para o campo das bebidas. Coisa de quem não tem o que fazer, sabe, numa noite fria de domingo. Resolvi até anotar tudo num papelzinho. Quem sabe um dia não vira crônica, hein?

     Cerveja/chope: sabe que desde muito cedo aprendi a gostar. Coisa de família. Venho de uma que bebe pra diabo, e que sempre se reunia pra bater papo, rir, comer e principalmente beber, é claro. Lembro-me de uma vez, não sei quantos anos tinha, em que enchi a cara de cerveja, presunto e abacaxi. Bebi tanto que saí falando castelhano. Mas prefiro chope. Bem tirado, gelado, três dedos de espuma.

     Vinho: veio depois da cerveja. Confesso que demorei pra tomar gosto. A primeira vez foi ruim, mas o paladar aos poucos foi se acostumando. Levava minha ex-mulher pra jantar num restaurante na Armando Sales. Começamos juntos a apreciar. Bons tempos.

     Cachaça: nunca gostei. Batidinha, só se tivesse leite Moça. Pura então, nem pensar. Mas não é que de uma hora pra outra, aquelas coisas que acontecem sem explicação, uma bicadinha aqui, outra acolá, e ela começa a fazer parte da minha vida? Não me lembro muito bem como tudo começou. Na verdade, sinto que venho mudando em algumas coisas. Alimentos de que não gostava, por exemplo. Bacalhau, sobrecoxa de frango, berinjela e mortadela. A cachaça entra nesse time.

      Uísque: da cachaça para o uísque foi um pulinho. Depois de estar consumindo cachaça regularmente, dei por mim dando uma bicada no copo de uísque de uma amiga. E não é que ele desceu macio!?

      Dizem por aí que a bebida alcoólica pode ser um catalisador de genialidade, e que grandes obras primas da literatura mundial não existiriam sem ela. O copo está ou esteve presente em algum momento na mesa dos grandes escritores. F. Scott Fitzgerald, por exemplo, era chegado num coquetel de gim, misturado com água e limão. William Faulkner gostava de uísque. Oscar Wilde, de absinto. Edgar Allan Poe, de uísque e absinto. Hemingway apreciava daiquiris e mojitos. João Ubaldo bebeu muito uísque até se tornar um abstêmio.
 
     Pois esse papo todo, amigo, me deu inspiração. Não, não, eu não vou acarinhar as teclas do meu companheiro em busca de um bom texto, transformar as anotações do papelzinho numa crônica sobre bebidas. Eu vou é tomar um uisquinho. Depois, quem sabe... Tá servido?

sábado, 28 de março de 2015

Frase do Dia

 http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/a/aa/Alexis_de_tocqueville.jpg/573px-Alexis_de_tocqueville.jpg

"Há muitos homens de princípios nos partidos políticos, mas não há nenhum partido de princípios."

(Alexis de Tocqueville)

quinta-feira, 19 de março de 2015

Dez Minutos

https://naosouexposicao.files.wordpress.com/2014/05/velha.png?w=584

Promessas vazias e esperanças vãs lhe tiram do sério, assim como se atrasar para o trabalho, que acaba sempre sendo ruim para ele mesmo. Quando se é responsável por diversas funções, torna-se fácil perder o foco, até porque o foco dele não é um, mas vários.

Mesmo com quinhentas e vinte e sete mensagens para responder, o celular apitando seus compromissos na empresa e a assistente repetindo que ele é funcionário como todos ali, às quatro da tarde ele para o trabalho e tranca a porta, fecha as venezianas que dão para o salão - onde trinta funcionários falam sem parar ao telefone -, fecha a janela e apaga a luz. Dez minutos, devidamente descontados da mísera meia hora que tem de almoço, é do que ele precisa.

Em dez minutos, sentado confortavelmente em sua desconfortável cadeira, olhos fechados, de barulho somente um falatório distante, ele reflete a mesma reflexão que lhe acompanha há mais de trinta anos de casa: e se ele não existisse, se não estivesse ali, o que mudaria? As respostas variam, de acordo com o tempo e da personalidade de quem lhe cerca, porque, diferente dele, as pessoas vêm e vão. Sim, sua assistente tem razão. Ele é somente mais um funcionário com meta para atingir, apesar de seu talento de se adaptar a qualquer situação, seja ela oriunda do humor do mercado ou da péssima condução dos negócios pelos donos da empresa.

Nesses dez minutos, pensa também em outra coisa. É pensamento que ele acessa, sempre que deseja sossegar o espírito. Porque, diferente do que enxergam na empresa, da imposição de seu olhar profissional, de seus ternos simples, mas muito bem conservados e passados, da austeridade de sua voz e do recorrente infortúnio de ser o autor de quase todas as broncas infligidas durante horário comercial, há essa fresta na rotina pela qual a luz entra e se espalha.

Há esses dez minutos, durante os quais ele pensa em como seria se estivesse em algum lugar com montanhas e rios, em vez de em um escritório, mas é certo que sua criatividade não ultrapassa as montanhas, tampouco molham os pés nos rios. Na verdade, nem se lembra de quando esteve em lugar onde não pudesse chegar de metrô. Mas a maior parte desses dez minutos ele gasta pensando em outra coisa, muito menos provável, porém cordialmente amansadora de angústias.

Quando pequeno, moleque de tudo, conheceu um menino na escola que lhe disse, em confidência, que quando crescesse sumiria do mapa. Ele não entendeu esse negócio, que não há como sumir da geografia do mundo. Mas o colega, menino danado, que não parava quieto e sorria o tempo todo, assegurou que havia sim um lugar fora do mapa, e que lá ele construiria a sua vida.

O colega se tornou seu melhor amigo. Não sumiu do mapa, ao contrário, é uma das pessoas mais conhecidas do mundo. Dono de hotéis em diversos países, fluente em pares de idiomas, homem de negócios que serve de modelo para tantos. Ainda sorri daquele jeito escancarado, só que não é mais sorriso desbravador, mas oferecido para omitir que, depois de tantas vitórias, vem perdendo a batalha para a solidão. Queria ele estar no mapa afetivo de alguém que não se importasse com o tipo de importância que ele tem para quem não lhe quer bem, mas definitivamente quer se tornar ele.

Seu amigo lhe ofereceu dinheiro, emprego, status. De forma atenciosa, preocupado com a vida de sempre dele, ofereceu-lhe viagens, que o mundo é grande, por que não conhecê-lo? Ele nunca aceitou mais do que ser convidado para um e outro jantar pomposo na casa do amigo. Fora isso, os churrascos e bate-papos eram sempre na varanda de seu apartamento comprado em parcelas a perder de vista.

A fama, o dinheiro, o sucesso do amigo nunca lhe interessaram. O que ainda os mantêm sintonizados é a amizade que eles construíram antes de se tornarem adultos envolvidos com suas questões profissionais e existenciais. Amizade conquistada nas tardes jogando bola, nas paqueras durante a aula de Ciências, que ambos caíram de amores pela professora. E nessa ideia que se tornou a única capaz de lhe assanhar o imaginário, que ele nasceu pessoa prática, infértil para os dramas compartilhados.

Durante os dez minutos em que ele consegue se desprender da realidade, da sua rudeza e austeridade, da impaciência do outro em compreender que a vida nem sempre nos dá o que exigimos dela, e quase sempre exigimos o que nem mesmo merecemos receber, e mergulha nesse silêncio que é o negar-se a escutar o mundo, ele se sente como se estivesse vivendo fora do mapa; que se alguém conferisse nesse período, ele não estaria em geografia que fosse.

Durante os dez minutos, ele desiste da sua realidade e vai morar nesse lugar interior, completamente fora do mapa, do jeito que o amigo, incessantemente, até que a vida lhe empalidecesse os desejos, acreditou ser possível.

O alarme do celular toca. Ele sai do transe, automaticamente. Abre os olhos, a janela, as venezianas e observa o movimento do salão. Os funcionários ainda falam ao telefone. Alguns deles são particularmente histriônicos.

Durante dez minutos, ele some do mapa, independente das urgências, da insatisfação de sua assistente, dos vários papéis que ele tem de desempenhar como funcionário de um mesmo lugar há mais de três décadas. Ele sabe que, para seguir com a vida, é preciso haver um momento em que possamos existir independente do que ou de quem nos cerca.

Essa liberdade cronometrada acontece todos os dias para ele, mesmo nos finais de semana, às quatro horas da tarde.

sábado, 14 de março de 2015

Sexta Treze Feira

http://clubedovendedor.com.br/wp-content/uploads/2013/12/1.-Gato-Preto.jpg 

A sexta-feira 13 não me aterroriza. Talvez, por que muitas outras coisas me apavoram terrivelmente, com ou sem sexta-feira, com ou sem dia 13. Sexta-feira 13, pra mim, não é filme que a gente arrepia antes da cena. Sexta-feira 13 é o que vejo pelo mundo em que transito, e pelo mundo que transita longe de mim. Sexta-feira 13 mesmo é a banalização da vida – que pode ser interrompida nas guerras entre nações, ou nas guerras particulares, numa briga de bar, num shopping, no trânsito cotidiano, numa esquina qualquer, ou em casa de família mesmo. 

Sexta-feira 13, pra mim, é gente (ainda) sofrendo fome, frio, e até morrendo, por falta de alimentação e agasalho, em vergonhoso estado de desamparo, diante dos olhares indiferentes. Sexta-feira 13, pra mim, são os sentimentos negativos que nós todos, seres humanos, nutrimos: desrespeito, orgulho, inveja, ciúme, vingança, ingratidão, raiva beirando ao ódio. Também, pra mim, sexta-feira 13 é má interpretação, fofoca, manipulação de seres humanos, irresponsabilidade, inconsequência, abuso de poder, ou assumir compromissos, para depois nem tentar cumpri-los.E por aí segue uma lista infindável do que me causa espanto, indignação e revolta.

Mas hoje é dia 13, e, para evitar essa lista aí de cima, não há remédio, nem simpatia. Já dizem que “se ferradura desse sorte, cavalo não puxava carroça”. Por isso, sempre vale manter alguma superstição, por que, afinal, faz parte da história humana. Eu, por exemplo, não passo debaixo de escada, pra evitar a possibilidade de levar um banho de alguma lata de tinta, na calçada.

Consultando a ‘mestra’ internet, percebo que superstição não é ‘coisa’ só de brasileiro, não. Os chineses, por exemplo, não varrem a casa, no ano novo deles, pra evitarem varrer a sorte junto. Em Ibiza, não se vê padre em barcos de pesca, em respeito aos “deuses do mar”. Os holandeses também batem na madeira, pra afugentarem a má sorte – a diferença é que batem a mão fechada na madeira não pintada.

Superstições é o que não faltam, pelo mundo. Quer mais?... Os escoceses não carregam pá (ferramenta) dentro de casa, pra evitarem a possibilidade de algum sepultamento próximo. Na Islândia, mulher grávida não toma coisa alguma, em xícara trincada, pra não ter filho com lábio leporino. Os japoneses são mais radicais que nós, por exemplo, que desconfiamos dos gatos pretos. No outro lado do mundo, qualquer gato, seja da raça ou da cor que for, dá azar do mesmo jeito.

Quem dera todos os meus temores e pavores estivessem centrados em possibilidades supersticiosas... até por que sexta-feira 13 não é todo dia...

sexta-feira, 6 de março de 2015

As Verdades Sobre Uma Ou Outra Dose

 

 “Melhor morrer de vodca do que de tédio.”

A frase acima está no Facebook do estudante Humberto Moura Fonseca, 23 anos, morto depois de beber 30 ou mais doses de vodca no último sábado. Ele participava de uma festa com bebida liberada em uma chácara em Bauru, cidade em que cursava engenharia elétrica. A festa era de estudantes de engenharia.

Após divulgação na imprensa, a frase circula hoje pelas redes sociais acompanhada de insinuações de que o responsável pela tragédia foi o próprio rapaz.

“Triste ver gente sem metas na vida”, escreveu a usuária Samira Queiroz no Twitter. “E o babaca morreu”, disse Pedro Sprangin na mesma rede social. “Realizou o ‘sonho'”, postou Leandro Capilluppi. “Parabéns, você atingiu seu objetivo”, disse Giovanna Pedroso. Etc, etc.

O que pode inspirar alguém a dizer coisas assim? O desprezo pela vida de um semelhante? Ou a perplexidade diante de uma morte absurda? Prefiro ficar com a última opção.

Overdose acidental nunca foi tratada como suicídio em qualquer lugar do mundo.

O álcool pode levar qualquer um a se expor a situações perigosas, especialmente ao consumo do próprio álcool em doses potencialmente letais. Porque quem bebe perde temporariamente as funções do cérebro responsáveis pela inibição e capacidade de julgar o certo do errado. Isto é científico.

Dizer que qualquer fração da culpa é de Humberto, alguém de quem não se conhece o perfil psicológico, é de uma perversidade obtusa.

Mas a Lei precisa e deve trabalhar. Dois organizadores da festa foram presos imediatamente. Eles serão acusados de homicídio com dolo eventual, aquele em que se realiza um ato tendo consciência de que a vítima poderá morrer em sua decorrência.

A culpa é deles? Não há registro de que os organizadores tenham empurrado as 30 doses de vodca pela goela de Humberto. Nem dele nem dos outros estudantes que participaram de uma competição para descobrir quem bebia mais. Além da vítima fatal, três foram parar no hospital em coma alcóolico mas sobreviveram.

O Ministério Público Estadual se diz empenhado em encontrar os culpados. Descobriram que a festa era clandestina, realizada sem alvará, e que não havia socorro emergencial à disposição.

Minha opinião é que a não ser que o MP tenha alcançado a sofisticação de processar e punir tradições de décadas e décadas como as orgias alcoolicas dos universitários brasileiros, vai acabar colocando na cadeia dois bodes expiatórios. No curso de engenharia, especificamente, este descontrole é endêmico.

Digite na busca de imagens de Google as palavras “festa” e “engenharia”. Você vai encontrar cartazes e folhetos que infalivelmente celebram o exagero no consumo de bebidas alcoolicas.

Do curso de engenharia da UFES em que estudei nos anos 2000 vem o cartaz da 42ª Calourada de Engenharia. Em letras garrafais: “A maior festa open bar do ES”, “1000 grades de Brahma liberadas”, “Vodka (sic) com energético liberados”, “Tequila liberada para as mulheres”. Enquanto estudei lá, dois estudantes morreram em festas, uma delas de engenharia. As confusões na infame festa “Abre Bodes”, que reunia os cursos de exatas, eram praxe.

Eu morei durante um ano numa república com três destes estudantes de engenharia. Usavam a bebida para escapar da pressão dos estudos e para vencer a timidez que parece acompanhar quem tem facilidade com números e equações.

Viviam a rotina de estudar obsessivamente um assunto árido, reprovavam em matérias que pareciam moldadas para tirar a sanidade do estudante e mal viam seres humanos do sexo feminino no dia a dia. Na sexta-feira à noite, pareciam aqueles elefantes indianos que volta e meia comem frutas fermentadas do chão, ficam loucos com o álcool e destroem vilas inteiras com suas patas gigantes.

A cultura do abuso do álcool nos cursos de engenharia precisa ser levada em conta na hora de encontrar os culpados pela morte de Humberto. Senão esta cultura, o descaso de quem deveria olhar melhor para estes rapazes que, como ele, passavam os primeiros anos longe de casa em meio a um dia a dia escorchante.

“Meu filho perdeu a vida por uma brincadeira de mau gosto”, disse Josely Pinto de Moura, mãe de Humberto, à Folha de S. Paulo. “Uma festa assim instiga o rapaz a beber, ele vai sendo motivado para isso”, disse.

Mãe sabe tudo.

Ao ver o cadáver de Humberto, a Unesp foi a primeira a tirar o corpo fora. Disse que esse tipo de festa é proibido, que aconteceu fora dos muros da universidade e, de quebra, exibiu um trecho de uma portaria em que conseguiu ignorar que o manjadíssimo plural de “campus” é “campi”.

“É vetado o uso de bebidas alcoólicas nas dependências dos Câmpus Universitários”. Além disso, em todas as Unidades, é realizada intensa campanha alertando para os perigo do consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

Se fazem mesmo estas campanhas, está pouco. Façam mais. Levem psicólogos, conversem com estes rapazes. Comecem pela engenharia.

(A frase do perfil de Humberto, aliás, é do poeta russo Vladimir Maiakóvski, não cita especificamente a vodca e pertence a um poema em que este homenageia o colega Sergei Yesenin, que se suicidou em 1925.)

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Sobre o Inferno Antes e Depois da Vida

 
 
Nem um dos filmes de terror já feitos por Hollywood coloca tanto medo nas pessoas quanto o mito de que um grande lago de fogo aguarda, após a morte, a maioria dos homens e mulheres que não se comportaram de acordo com os padrões de determinadas religiões. A mais conhecida de todas é com certeza a cristã. Tendo provavelmente origens gregas e tão utilizado na idade média para arrecadar dinheiro para a igreja católica, o conto do inferno foi tomando cada vez mais força durante o tempo até chegar nos dias atuais quando ainda pode reger a vida de milhares de pessoas.

O inferno, segundo o conto cristão, é um lugar para onde os que não creram em Jesus de Nazaré vão quando sua vida chega ao fim. Lá existe um grande lago de fogo e enxofre e nas palavras atribuídas ao próprio Jesus "Há dor e ranger de dentes". E não para por ai não. Esse sofrimento é eterno. Ao que parece sua pele não vai ser consumida nem seu coração vai parar, mas a dor continuará a machucar para todo o sempre. É realmente de arrepiar, apesar de ainda não entender ao certo como o fogo pode não arder na sua pele e ainda assim fazer com que as células nervosas responsáveis pela dor sejam ativadas. Mas não se pode perguntar isso aos líderes cristãos, pois eles responderão: "Ele é Deus, pode fazer tudo!"

O fato é que segundo a ultima pesquisa divulgada pela BBC existem mais de três bilhões de pessoas que não seguem a fé cristã. Você leu exatamente isso TRÊS BILHÕES de pessoas que segundo a crença bíblica irão arder no lago de fogo e enxofre para sempre. E isso porque estamos falando apenas dessa geração, se pensarmos em todas as pessoas que já vieram ao mundo e o deixaram sem professar a fé triplicaremos facilmente esse número, contudo todos parecem muito à vontade em afirmar que tal doutrina é verdadeira e ainda que reflete todo o amor de Deus pela raça humana.

Quase ia me esquecendo de que para alguns nós ainda temos o livre direito de escolha, ou "livre arbítrio". É mais ou menos isso: "Você pode crer em mim ou passar a eternidade fritando num lago de fogo. Escolhe ai!" Quando questionado sobre esses fatos, um amigo me respondeu da seguinte maneira: "Não quero saber dos que arderão em chamas, o importante é que eu não estarei lá, pois o Senhor me salvou". Quase fico emocionado com tanto amor pelo próximo. Mas é exatamente isso que acontece com a religião, pessoas realmente boas são levadas a proferir frases carregadas de egoísmo e maldade como essa.Steven Weinberg definiu bem isso quando disse que "Religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela teríamos pessoas boas fazendo o bem e pessoas más fazendo o mal. Mas para pessoas boas fazerem coisas más é necessária a religião".

Prefiro encerrar esse post com uma frase que ouvi de um cientista ateu em um dos documentários sobre religião que assisti. Não me lembro o nome dele, mas fiquei fascinado com sua resposta mediante a pergunta se não seria mais vantagem acreditar em deus, pois se ele morresse sem crer e tudo fosse verdade ele iria ser torturado eternamente. Olhando firmemente para os olhos do entrevistador, aquele homem respondeu quase que imortal: "Se eu estivesse no céu sabendo que ao mesmo tempo bilhões de pessoas estavam em sofrimento extremo, esse para mim seria o inferno".

Pesquisar este blog

Você vai marcar a primeira opção?